"Esperando pela Chuva" ou "Enxergando Pelo Lado Positivo"

Entradas do Setembro 2009

Fim de Inverno

Setembro 30, 2009 · Deixe um comentário

Sentindo os pés gélidos – apesar das botas de couro e das grossas meias que ostentava (isso sem falar do fato do inverno ter oficialmente acabado) – flanava por aquela rua do Centro da cidade (estranhamente vazia), naqueles últimos dias de Setembro. Seus cabelos cuidadosamente descuidados se deliciavam com a constante ventania que – prenunciando vindouros dias mais claros e mais longos – dava seu ar da graça naquele gracioso fim de tarde.
O som dos passos soavam de forma rítmica na calçada. Meio satisfeito, meio insatisfeito…não sabia com certeza como estava; mas era certo que faltava algo desconhecido para preencher algo incerto.
Encostando-se em uma parede mais ou menos limpa (paredes limpas eram extremamente raras naquela cidade, por isso cuidava para não sujar o sobretudo) fitava com curiosidade espécimes da civilização local…por exemplo, um engraxate com uma perna mais curta do que a outra (não veio lhe oferecer seus serviços… realmente deveria estar parecendo ameaçador totalmente vestido de preto – ele pensou; mesmo que na realidade o engraxate tivesse vestido seus tênis velhos) que caprichosamente mancava, sem pisar em nenhum dos vãos das pedras do calçamento (este detalhe em particular lhe chamou a atenção). Logo adiante, uma motocicleta barulhenta trespassava um semáforo fechado, para pavor e revolta dos apressados passantes da faixa de segurança…e ali, na esquina, um casal apaixonado se beijava fervorosamente, alheios a todo resto – sim, pois a eles a cidade que os cercava era de infinita irrelevância (apesar do já citado frio, que a emprestava um certo charme).
Adorava aquelas ruazinhas próximas do porto. Na esquina seguinte (aonde o casal havia a pouco desaparecido) vislumbrou os velhos, abandonados e enferrujados guindastes…quando uma rajada de vento frio e cortante fez seus cabelos taparem sua visão momentaneamente : “nada mais simbólico….é como um aviso para respeitar a decadência alheia”, pensou. Observou o lado oposto ao porto, notando o grande e antigo prédio rosa ao fim da rua. Eis que, satisfeito consigo mesmo, entendeu o que necessitava para preencher aquele incômodo vazio : “Preciso de chocolate quente…com creme batido…e acima de tudo: necessito do calor dela”.

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