"Esperando pela Chuva" ou "Enxergando Pelo Lado Positivo"

Os amigos e inimigos da felicidade moderna (I)

Julho 14, 2009 · 2 Comentários

Sentiu uma …uma coisa….não, não sabia explicar ao certo, mas tinha a ver com a perda total do encanto que o mundo exercia sobre a criança que ele tinha sido um dia. Tal força foi minando aos poucos a energia vital advinda daquela tenra e terna época, até o momento em que nada mais restou. Nada, a não ser aquela cartela milagrosa de cápsulas de embalagem tarja preta.

Eis que havia decifrado e resumido toda a sequência lógica de sua vida, finalmente, só restava agora saber o que fazer com aquele conhecimento recentemente adquirido. Oferecer-se como um garoto propaganda daquele conhecido Laboratório Químico não era uma idéia tão absurda como – em princípio – tinha parecido a ele. “Nos desculpe, mas precisamos de um rosto mais famoso, e com maior apelo..”, haviam respondido à sua proposta, esta resposta que consistia em uma educada carta de agradecimento pela idéia proposta, e também em mais duas cartelas do tarja preta em questão.

Irritado, sugeriu ao médico a radical troca de toda aquela bomba química, afirmando que não lhe servia para mais nada, que os sintomas haviam retornado. Todos.

O profissional, naturalmente, hesitou, perante aquela mudança drástica do panorama que, até poucos dias, havia sido tão positivo. Uma ameaça velada de suicídio o dissuadiu de qualquer idéia que contrariasse seu paciente. Sabia que da maioria das vezes aquilo não passava de draminhas pré-fabricados de jovens querendo aparecer, mas o considerável número que constava nas estatísticas psiquiátricas sobre a seriedade daquele tipo de ameaça, e, principalmente, a mácula que um acontecimento daquela magnitude poderia gerar em uma respeitável ficha médica….enfim, tremia só de pensar (de fato apresentava um leve tremor no joelho esquerdo, nessas ocasiões) – o que o fez concluir seu raciocínio com muitas reticências, que seriam devidamente retomadas no próximo caso similar.

Saiu satisfeito do consultório, agora tinha uma marca completamente nova de tricíclicos, um lançamento do sempre badalado mercado de medicamentos antidepressivos, o maior rival das religiões, para testar. A capacidade de inovação dessa área da ciência é completamente entusiasmante e ele admitia isso – não sem se deixar de policiar quanto a esse entusiasmo, que poderia, segundo um lógica simples e perigosa, ser mais eficiente que a já referida bomba química….e ele não queria destruir algo do qual ansiava participar.

Estava feliz, e, francamente, olhava com desprezo qualquer tentativa de conversa a respeito da qualidade de tal felicidade. “Abstrações, ora bolas….felicidade é felicidade…felicidade é felicidade – repetia, sem se dar conta.”.

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Fiquei tentado a compreender essa linha de raciocínio tortuosa do personagem, só posso postular que : “Só por quê um copo de café preto esfria, ele não deixa de ser café…mesmo que dê azia….”

Categorias: Reflexões · Textos

2 respostas Até agora ↓

  • Luciani // Agosto 2, 2009 às 5:57 pm | Responder

    Olá!
    Texto interessante. Gostei da parte do café…

    Permita-me uma breve apresentação. Meu nome é Luciani. Não sei bem como vim parar aqui. Só sei que gostei das coisas que li. Não tenho o costume de comentar em blogs e nem sair por aí procurando perfis no orkut de pessoas que não conheço.

    Permaneci pelas palavras.

    Desculpe a invasão.
    Gostei do blog.

    ;-)

  • Geraldo Felício da Trindade // Setembro 1, 2009 às 1:10 am | Responder

    A eterna busca da felicidade pelo homem
    Geraldo Felício da Trindade – trindadefilosofia@yahoo.com.br
    Quando se olha para o mundo atual, vê-se a tristeza e o desânimo estampados nos rostos das pessoas. Vê-se homens e mulheres que batalham arduamente para alcançar metas materiais e esquecem-se da meta essencial da vida: a felicidade. Lutam para conseguir sua satisfação financeira, gastam suas forças, suas energias e quando conseguem seu objetivo já não dispõem de vitalidade para saborear suas conquistas.
    Alvoroçados, correm para ter o melhor carro, a melhor casa, o melhor celular… Deixam de conjugar verbos, como cooperar e solidarizar, para, ao contrário, conjugarem os verbos competir e individualizar. Frente à essa realidade, ninguém deve impressionar-se com o exorbitante número de famílias desagregadas, com o excesso do consumo de drogas e com a prostituição.
    As pessoas desperdiçam suas vidas correndo desesperadamente atrás de miragens. Metaforicamente, em pleno deserto buscam a felicidade nos falsos oásis. Embora saibam que o seu poder econômico, político ou seu status são passageiros, a maioria se ilude construindo castelos de areia, na ânsia de acumular. Esquecem-se de que o vento pode varrer todo o deserto e destruir seu frágil castelo.
    Contraditória capacidade do homem: pensar! Sabem que pouco valor tem a quantidade, mas insistem. Correm atrás do maior número de conquistas, como viagens e festas, mas perdem a oportunidade de escutar o que fala seus corações. Buscam no outro a segurança para si e, no exterior, o amor, a tranqüilidade e a paz. Parece-lhes o mais fácil, o mais cômodo, porém, esquecem-se de que só encontrarão tudo isso dentro de si mesmos.
    Pode-se dizer que já ultrapassamos a era da modernidade e estamos ingressando no que se pode chamar de “era da comparação”. Compara-se o dinheiro, o status, o reconhecimento, a fama, a beleza… As pessoas aderem cada vez mais aos valores que a sociedade impõe, sem ao menos saber se tais valores podem realizá-las.
    A felicidade, nos dias atuais, é colocada como meta e enquanto procura-se alcançá-la perdem-se os verdadeiros momentos felizes. Na verdade, a felicidade não é nada mais que um filme que reúne os diversos momentos da vida. Essa é a dinamicidade da existência humana: tanto alegria, quanto dor.

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