"Esperando pela Chuva" ou "Enxergando Pelo Lado Positivo"

Eu gosto do gosto…(ou: eu gosto do gôsto…)

Março 1, 2009 · 3 Comentários

Prólogo

1990

Cenário: Will Dalosto amadurecendo sua leitura.

Po…oorrr..to Ale…alegre…”. Porto Alegre. Tá certo mãe?”.
Sim filho, mas não lê esse livro velho não, não se escreve mais Pôrto Alegre, assim com o chapeuzinho… tu vai aprender errado.”

Naquela altura eu pegava qualquer coisa que aparecesse na minha frente para juntar as letras e decifrar a palavra, razão pela qual eu havia xeretado na nossa pequena biblioteca doméstica e me apropriado de qualquer livro que me viesse a frente, no caso um livro velho escolar da minha mãe, dos anos 60.
Esclarecendo um pouco, 80% dos livros que tínhamos eram daquela época. O engraçado, então, foi ter sido praticamente alfabetizado em casa com livros de grafia desatualizada, mas claro, sempre me sendo apresentado o que não era mais válido ortograficamente. Mas, ah! Eu gostava do Pôrto, do Cafèzinho (essa crase virada no meio da palavra era um charme), conheci suficientemente o gôsto e a sêde para sentir que elas não deveriam ter sido supridas em 1971.

Aquela coisa de tal palavra não ser escrita de tal forma, mesmo que estivesse ali, impressa, sempre me chamava atenção. “Era assim, mas não é mais”. Resolvemos escrever as palavras de tal forma, até que por algum motivo resolvemos que não nos servem mais daquele modo e mudamos.
Sinceramente, por algum milagre deu tudo certo e nunca me confundi com essa duplicidade.

2009

Faz, neste exato dia, dois meses da entrada oficial das novas normas. Quando soube dela eu pensei: “bem, vamos fazer algo para melhorar a língua”, porém, logo após, soube que a reforma era elaborada para fins comerciais, a dizer: não haver maiores discrepâncias; além dos inevitáveis regionalismos, entre o nosso Português Brasileiro, o Luso e o Africano; facilitando enormemente a vida do mercado livreiro como um todo. Os portugueses bem que espernearam, gritaram e choraram por mais um golpe no maior patrimônio cultural que eles legaram (mesmo que me dê vontade de encher a cara de socos de quem inventou quatro “porquês” distintos), mas não adiantou: quase duas centenas de milhões de leitores potenciais (como se dez por cento de fato tivessem qualquer hábito de leitura) pesaram mais do que dez milhões portugueses, o tamanho da população do Rio Grande do Sul.
O dinheiro fala, e ele disse: ”Fodam-se, gajos! Aproveitem e comprem uma edição do Houaiss para irem se acostumando com o ‘brasileiro’ – como lá dizem).
É, deve ter sido duro de engolir.

Agora uma análise mais focada:

Por favor: “voo”? Isso é a coisa mais bizarra que vejo desde os “p” mudo do português luso. Aliás, forçamos eles a acabar uma aberração e empurramos uma nova….(Equívoco: Essa forma já era usada em Portugal – Agradecimentos a Karina R. pelo esclarecimento)
“Li no Diário Gaúcho que o voo não tem mais acento. Todo mundo de pé, gurizada !” (cena provável de alguma turma andando de avião pela primeira vez, em algum aeroporto). ;)

Ainda acho meio estranho “ideia”, “jiboia” e afins, mas é menos sofrível do que a tal duplicação de erres, como no caso do “contrarregra”…o que as pessoas não fazem para não colocar um bendito hífen numa palavra.

O trema? Bem, eu – como todos – nunca dei muita atenção para os simpáticos pontinhos gêmeos…em verdade continuo sem dar a mínima para eles, que seguem sendo colocados pelo Office por tempo indeterminado.

O fim do “pára” acentuado (ordem de parar) é meu maior inconformismo. Como diferenciar ele do “para” comum, de preposição? Esse é, para mim, o maior erro desde o fim do “gôsto” e da “sêde”. “Ah, mas tu tem que ver o contexto da palavra na frase”. Ora, francamente, metade do povo desse país é analfabeto funcional e querem exigir o tal do “contexto”? Vão perguntar se é comer.

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Em suma, se quiseram melhorar e facilitar o resultado ficou bastante discutível.
Eu? eu sigo escrevendo pela grafia antiga até quando me for permitido; e ainda é, por lei, mais um par de anos.

Categorias: Reflexões · Relatos

3 respostas Até agora ↓

  • Karina R // Março 2, 2009 às 3:10 pm | Responder

    “Por favor: “voo”? Isso é a coisa mais bizarra que vejo desde os “p” mudo do português luso. Aliás, forçamos eles a acabar uma aberração e empurramos uma nova….”

    Hm… não.
    Sou brasileira, mas moro em Lisboa há 3 anos. Voo, ideia, etc é a maneira européia de tais palavras, ou seja, nesse caso são os brasileiros a adaptarem-se à forma lusitana.
    O que até agora não foi bem explicado por aqui é o que cairá de P’s e C’s e o que não cairá… Dizem que cairão os C’s e P’s que não são pronunciados, como em actividade, por exemplo, que é pronunciada como no Brasil.
    Mas facto, por exemplo, é o que no Brasil escrevemos fato, mas a versão sem o C aqui em Portugal quer dizer “traje”. E o C de facto é realmente pronunciado.
    Ainda há o problema de quando no Brasil o C ou o P é pronunciado, portanto está na grafia, como em “recepção”. Aqui não pronunciam o P (o que faz com que a palavra tenha o mesmo som de recessão, vai entender). Na reforma, o P vai cair ou não???
    Ainda vai dar muito pano pra manga nesses lados de cá.

  • Tinha // Março 2, 2009 às 6:19 pm | Responder

    Nossa, eu estou tentando viu, mas é difícil e horrível.

    Ideia, paranoia e contrarreforma é de doer hahaha

    ;**

  • lilly // Março 9, 2009 às 3:05 am | Responder

    Também não me conformo com o “pára” sem acento.

    E, mesmo que já fosse usada me Portugal, também não gostei de voo e afins sem o ^.

    Hunf.

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