"Esperando pela Chuva" ou "Enxergando Pelo Lado Positivo"

Entradas do Março 2009

“ego and trip” ou “dois fragmentos de um ponto doc”

Março 30, 2009 · 1 Comentário

Me refugio do calor reinante da cidade dita-maravilhosa em uma refrescante viagem de metrô que vinha da realidade, fazia escala no desespero e levava a uma proposta de esperança.(aqui tratando com uma forma carinhosa as distintas regiões da metrópole)
É sempre um pouco estranho marchar na areia da praia; não que a dificuldade se baseie nas características físicas da areia, mas sim devido a impressão de que todo o universo pára e te vigia naquele momento, ciente de sua condição de peixe fora d’água, afinal, meu Rio é outro, mais ao sul, um Rio no qual um cenário agradável como uma praia tem papel bastante coadjuvante…mas isso não vem ao acaso.
O calor me oprimia e não me deixava raciocinar com clareza, com exceção de um único e intermitente pensamento:
Frio, amigo? Onde tu andas? Penso e vivo melhor contigo, ou penso que vivo melhor?

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Antigamente eu odiava, mas hoje em dia eu simplesmente sou apaixonado por viagens aéreas noturnas. Odiava pois a única coisa interessante da viagem era ver a humanidade em seu planeta, em sua verdadeira forma, pequenos e insignificantes; o que é impraticável à noite….mas justamente nesse momento, altas horas, meus companheiros de viagem ficam quietos, dormem (inclusive seus rebentos barulhentos), passo a conseguir escutar meus pensamentos com uma clareza fantástica, como se 8 mil metros de altura os potencializasse sem ter que praticar o uso de substâncias ilícitas.
Espio a minúscula janela, escutando Jarre, imaginando que aquele trovão longínquo pode, numa cena chocante, me atingir…(o que em algum(ns) momento(s) em específico eu poderia desejar com toda a força)…desprezando os pontinhos alaranjados das luzes de alguma cidadezinha minúscula lá embaixo. Observo as imensas nuvens bem de perto, em primeira mão, forçando a vista e a imaginação atrás de alguma esperança ou verdade (mesmo que seja desagradável, uma verdade ainda é uma verdade) sem os intermediários da turma da batina lá de baixo….mas enfim, meu devaneio se aprofunda quando entramos em alguma nuvem densa, daquelas em que não se enxerga um palmo além da janela, ao mesmo tempo em que me oferecem alguma porcaria que provavelmente atacará o fígado durante a madrugada, mas a qual aceito, para tentar esquecer a falta que o cigarro me fará nas horas restantes de voo. Em vão.
Então só me resta fechar os olhos e aguardar o momento em que meus ouvidos estalarão, anunciando de forma natural, meu retorno a condição de habitante de um pontinho de luz alaranjado.

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reconhecimento, ainda que tardio

Março 3, 2009 · Deixe um comentário


Ficou muito bom, embora eu não use óculos a mais de um ano.

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Eu gosto do gosto…(ou: eu gosto do gôsto…)

Março 1, 2009 · 3 Comentários

Prólogo

1990

Cenário: Will Dalosto amadurecendo sua leitura.

Po…oorrr..to Ale…alegre…”. Porto Alegre. Tá certo mãe?”.
Sim filho, mas não lê esse livro velho não, não se escreve mais Pôrto Alegre, assim com o chapeuzinho… tu vai aprender errado.”

Naquela altura eu pegava qualquer coisa que aparecesse na minha frente para juntar as letras e decifrar a palavra, razão pela qual eu havia xeretado na nossa pequena biblioteca doméstica e me apropriado de qualquer livro que me viesse a frente, no caso um livro velho escolar da minha mãe, dos anos 60.
Esclarecendo um pouco, 80% dos livros que tínhamos eram daquela época. O engraçado, então, foi ter sido praticamente alfabetizado em casa com livros de grafia desatualizada, mas claro, sempre me sendo apresentado o que não era mais válido ortograficamente. Mas, ah! Eu gostava do Pôrto, do Cafèzinho (essa crase virada no meio da palavra era um charme), conheci suficientemente o gôsto e a sêde para sentir que elas não deveriam ter sido supridas em 1971.

Aquela coisa de tal palavra não ser escrita de tal forma, mesmo que estivesse ali, impressa, sempre me chamava atenção. “Era assim, mas não é mais”. Resolvemos escrever as palavras de tal forma, até que por algum motivo resolvemos que não nos servem mais daquele modo e mudamos.
Sinceramente, por algum milagre deu tudo certo e nunca me confundi com essa duplicidade.

2009

Faz, neste exato dia, dois meses da entrada oficial das novas normas. Quando soube dela eu pensei: “bem, vamos fazer algo para melhorar a língua”, porém, logo após, soube que a reforma era elaborada para fins comerciais, a dizer: não haver maiores discrepâncias; além dos inevitáveis regionalismos, entre o nosso Português Brasileiro, o Luso e o Africano; facilitando enormemente a vida do mercado livreiro como um todo. Os portugueses bem que espernearam, gritaram e choraram por mais um golpe no maior patrimônio cultural que eles legaram (mesmo que me dê vontade de encher a cara de socos de quem inventou quatro “porquês” distintos), mas não adiantou: quase duas centenas de milhões de leitores potenciais (como se dez por cento de fato tivessem qualquer hábito de leitura) pesaram mais do que dez milhões portugueses, o tamanho da população do Rio Grande do Sul.
O dinheiro fala, e ele disse: ”Fodam-se, gajos! Aproveitem e comprem uma edição do Houaiss para irem se acostumando com o ‘brasileiro’ – como lá dizem).
É, deve ter sido duro de engolir.

Agora uma análise mais focada:

Por favor: “voo”? Isso é a coisa mais bizarra que vejo desde os “p” mudo do português luso. Aliás, forçamos eles a acabar uma aberração e empurramos uma nova….(Equívoco: Essa forma já era usada em Portugal – Agradecimentos a Karina R. pelo esclarecimento)
“Li no Diário Gaúcho que o voo não tem mais acento. Todo mundo de pé, gurizada !” (cena provável de alguma turma andando de avião pela primeira vez, em algum aeroporto). ;)

Ainda acho meio estranho “ideia”, “jiboia” e afins, mas é menos sofrível do que a tal duplicação de erres, como no caso do “contrarregra”…o que as pessoas não fazem para não colocar um bendito hífen numa palavra.

O trema? Bem, eu – como todos – nunca dei muita atenção para os simpáticos pontinhos gêmeos…em verdade continuo sem dar a mínima para eles, que seguem sendo colocados pelo Office por tempo indeterminado.

O fim do “pára” acentuado (ordem de parar) é meu maior inconformismo. Como diferenciar ele do “para” comum, de preposição? Esse é, para mim, o maior erro desde o fim do “gôsto” e da “sêde”. “Ah, mas tu tem que ver o contexto da palavra na frase”. Ora, francamente, metade do povo desse país é analfabeto funcional e querem exigir o tal do “contexto”? Vão perguntar se é comer.

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Em suma, se quiseram melhorar e facilitar o resultado ficou bastante discutível.
Eu? eu sigo escrevendo pela grafia antiga até quando me for permitido; e ainda é, por lei, mais um par de anos.

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