Me refugio do calor reinante da cidade dita-maravilhosa em uma refrescante viagem de metrô que vinha da realidade, fazia escala no desespero e levava a uma proposta de esperança.(aqui tratando com uma forma carinhosa as distintas regiões da metrópole)
É sempre um pouco estranho marchar na areia da praia; não que a dificuldade se baseie nas características físicas da areia, mas sim devido a impressão de que todo o universo pára e te vigia naquele momento, ciente de sua condição de peixe fora d’água, afinal, meu Rio é outro, mais ao sul, um Rio no qual um cenário agradável como uma praia tem papel bastante coadjuvante…mas isso não vem ao acaso.
O calor me oprimia e não me deixava raciocinar com clareza, com exceção de um único e intermitente pensamento:
“Frio, amigo? Onde tu andas? Penso e vivo melhor contigo, ou penso que vivo melhor?“
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Antigamente eu odiava, mas hoje em dia eu simplesmente sou apaixonado por viagens aéreas noturnas. Odiava pois a única coisa interessante da viagem era ver a humanidade em seu planeta, em sua verdadeira forma, pequenos e insignificantes; o que é impraticável à noite….mas justamente nesse momento, altas horas, meus companheiros de viagem ficam quietos, dormem (inclusive seus rebentos barulhentos), passo a conseguir escutar meus pensamentos com uma clareza fantástica, como se 8 mil metros de altura os potencializasse sem ter que praticar o uso de substâncias ilícitas.
Espio a minúscula janela, escutando Jarre, imaginando que aquele trovão longínquo pode, numa cena chocante, me atingir…(o que em algum(ns) momento(s) em específico eu poderia desejar com toda a força)…desprezando os pontinhos alaranjados das luzes de alguma cidadezinha minúscula lá embaixo. Observo as imensas nuvens bem de perto, em primeira mão, forçando a vista e a imaginação atrás de alguma esperança ou verdade (mesmo que seja desagradável, uma verdade ainda é uma verdade) sem os intermediários da turma da batina lá de baixo….mas enfim, meu devaneio se aprofunda quando entramos em alguma nuvem densa, daquelas em que não se enxerga um palmo além da janela, ao mesmo tempo em que me oferecem alguma porcaria que provavelmente atacará o fígado durante a madrugada, mas a qual aceito, para tentar esquecer a falta que o cigarro me fará nas horas restantes de voo. Em vão.
Então só me resta fechar os olhos e aguardar o momento em que meus ouvidos estalarão, anunciando de forma natural, meu retorno a condição de habitante de um pontinho de luz alaranjado.



