"Esperando pela Chuva" ou "Enxergando Pelo Lado Positivo"

Entradas do Fevereiro 2009

“les misérables dans un rêve d’une nuit d’été”

Fevereiro 18, 2009 · 1 Comentário

Em meio ao beco escuro, em uma noite que beirava a uma espécie de releitura da era glacial, vi aquele senhor espreitando atrás de um poste de lampião queimado; não tive tempo de o temer, pois – de fato – percebi que estava com mais temor do que eu. Percebi, logo após, que aquele pequeno volume que carregava às costas não era nenhuma mochila de sobrevivência, e sim uma pequena garotinha, de uns 7 anos, creio.
Após aparentemente perceber que eu não era nenhum dos seus perseguidores, ele seguiu avançando pelo beco. Evitando fazer barulho de passos, ele caminhava rapidamente de uma forma que parecia um espectro, quase flutuando sobre o calçamento.
Subitamente entendi o que ele temia, dei alguns rápidos passos em sua direção e sussurrei: “por aí não..por aí não…ele vai te pegar, está te esperando com uma emboscada logo adiante.”. Ele parou e, de fato, vislumbrou a uma longa distância, em uma rua iluminada aonde o beco findava, uma sombra alta e ameaçadora que felizmente não nos enxergava, pois a medonha escuridão do beco nos protegia. Senti seu desespero por alguns instantes (não havia por onde fugir), até o momento em que ele notou uma abertura a determinada altura de um muro de uma casa vizinha ao beco. Na mesma hora entendi o que ele queria e me ofereci para segurar a garotinha enquanto ele escalasse aquela irregular parede, ao que ele em um primeiro momento fez menção de recusar, mas provavelmente sentindo que outra opção era inexistente, permitiu. Fiquei admirado com a destreza daquele senhor, que devia estar beirando os cinquenta anos – um palpite; escalando o muro até aquela saliência. Ao ver que ele conseguira, estiquei-me e devolvi-lhe a pequena até seus braços. Ele agradeceu do fundo do coração (eu senti que era verdade), e sumiu nas trevas daquele vão na parede, adentrando em algum pátio, ou assemelhado…enfim, algum lugar seguro.
Segui meu caminho no Beco até o já mencionado fim do mesmo, na rua iluminada; ao chegar a esse ponto, deparei-me com a origem daquela sombra alta avistada anteriormente: um oficial de polícia, que ao ver-me fez uma educada saudação, e perguntou se eu não havia cruzado com um senhor suspeito naquele beco, ao que eu respondi: “senhor oficial, isso é um tanto relativo, para mim todos são senhores suspeitos a esta hora da noite, inclusive o senhor…e quiçá eu mesmo”. Ele, julgando estar falando com algum pândego,ordenou que eu desaparecesse de sua frente, ao que eu obedeci imediatamente: não queria passar a noite na prisão.
Um pouco mais adiante virei-me para trás e vi que o oficial havia desaparecido: entrara no beco, na continuação de sua busca? Eu não sabia. Tratei de seguir meu caminho, não gostava de interferir nas grandes histórias, enquanto resmungava : “maldito Javert”.

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Acordei.
4h da madrugada, adormeci lendo, e o livro agora estava caído ao lado da cama. Peguei-o, e coloquei no costumeiro local dos livros de cabeceira. Ah, “Os Miseráveis”, desde a leitura de “Os Irmãos Karamazóv” meu subconsciente não invadira tanto a imaginação alheia do século retrasado. Mas, mesmo assim, ainda grogue por recém ter despertado de um sono profundo, ponderei: “oras, eu me sentiria um verme se permitisse que capturassem o Jean Valjean com a coitadinha da Cosette a tiracolo….”.

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“outdoors do cotidiano”

Fevereiro 17, 2009 · Deixe um comentário

É chegado o tempo em que a partir do momento em que discordamos ou mesmo não gostamos de uma determinada pessoa, pegamos sua foto – de preferência aquela pose mais dúbia, mais ingrata, e afixamos-a em um outdoor em local de grande circulação em plena metrópole. Eu disse um? Nada disso! Vamos afixar em dezenas, em dúzias, em dezenas de dúzias. Quem as ver que faça seu próprio julgamento: ria ou condene.
cheguei até a deixar em P&B e espelhado pra não me processarem...

Eu pessoalmente não tenho informações (e quem as têm?) para afirmar a veridicidade do conteúdo acusatório de tais outdoors, mas sei de duas coisas:

a)se for mentira: uma pessoa é seriamente atacada em sua honra, exposta e execrada perante a sociedade; é jogada a sua imagem ao papel grosseiro dos banners, à chuva e ao relento que atacam e desgastam sem querer saber maiores detalhes de toda a pendenga.

b)se for verdade: um ataque público pode ser uma excelente forma de vingança, certamente, mas parando um momento: será a atitude eticamente mais adequada? O que mais incomoda é de quem parte isso, os educadores dos nossos atuais e talvez futuros filhos.

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O espaço está aberto para eventuais discordâncias, apenas suplico que não coloquem meu rosto em outdoors me atacando.

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“brasileiros e brasileiras” ou, “de quando ser tupiniquim virou maldição”

Fevereiro 15, 2009 · Deixe um comentário

Acompanhando o caso da brasileira que teria sido atacada por neo-nazistas na Suiça (vejam só, o paraíso terreno do melhor da civilização humana – em tese), percebe-se duas coisas em duas situações casuísticas distintas:

a)ela foi, de fato, atacada por neo-nazistas: bem, então isso evidencia a onda crescente de xenofobia instalada nos países de primeiro mundo contra os invasores do terceiro, principalmente aos brasileiros, que roubam seus empregos de quinta categoria e lhes pertubam a mente aos relembrar a todo o santo momento que o Planeta Terra está longe de ser uma grande Europa. Situaçãozinha desagradável.

b)ela teria, talvez, mentido sobre a gravidez e forjado as cutiladas em um quase-inacreditável ato de auto-imolação. Essa tese soa aterradora, mas não é tão difícil como parece, e só refletir sobre o quadro de uma pessoa só, em um país estrangeiro, com algum distúrbio mental – mesmo que passageiro – transferindo seus problemas para terceiros, mesmo que imaginários. Situação ainda pior.

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Se for a primeira situação, temos evidente de que não é fácil nascer e ter a vida em um país com todas as mazelas como o Brasil – no qual para cada passo que uma pessoa esforçada tenta dar a frente, demais forças lhe empurram três vezes em direção contrária, ao fracasso – mas é ainda pior tentar a vida em algum lugar teoricamente mais civilizado, pois provavelmente a má fama de ser um cidadão brasileiro vai chegar ao local muito antes do próprio cidadão.

No caso da segunda, a situação ainda piora – desmoralização total -, pois além de ter a péssima fama atual, o brasileiro arcará ainda com a fama de mentiroso e de que gosta de aparecer, e isso alimentará ainda mais a xenofobia contra nós todos. É uma situação da qual nem gosto de pensar a respeito.

Em suma, para qualquer lado que a verdade for exposta, nossa situação não melhora nem um pouquinho, pode mesmo piorar.

“Oh, something is squeezing my skull
Something I cannot describe
There is no hope in modern life”
(Morrissey).

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Mais Uma Pequena Nota de Relançamento

Fevereiro 1, 2009 · Deixe um comentário

Falava eu sobre a pausa que impus a este espaço, porém refleti de que – de certo modo – eu nem devo me sentir tão culpado assim, pois ano passado houve, de fato, uma queda considerável do ritmo dos blogs em geral. Para constatar isso nem preciso ir muito longe: meus vizinhos, por exemplo, são os mais evidentes exemplares dessa tendência. O Derbi está um vagabundo de marca maior com seu blog; a Puny parece ter percebido que o nível de textos publicados e o de semestres avançados na faculdade são grandezas inversamente proporcionais; a Vaca idem, mas esta pelo menos possui um humor azedo que é divertido (é brincadeira, gente ;) )…a Dora segue prolixa, mas ela tem a força do habito jornalista, portanto não conta.

Alguns dizem que talvez a blogosfera venha perdendo charme e espaço para o Twitter, quem sabe…é duro brigar com um serviço em que pode-se colocar um aviso público online, de quê : “vou fazer um mix e já volto”, “acabei de sair do avião a 20 minutos, me deu medinho na aterrisagem”, “chutei uma pedra e machuquei o dedão do pé”, ou qualquer outra mensagem irrelevante cuja publicação fora daquele universo faria corar qualquer dono de blog. Enfim, eu juro que tentei usar o Twitter, mas na minha opinião ele conseguiu ser mais inútil que a invenção que redefiniu o conceito de inutilidade: o Orkut….e isso não era tarefa fácil.

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Mudando um pouco o enfoque, fiquei agradavelmente surpreso com a repercussão positiva de meus posts sobre o processo de recuperação da cirurgia de miopia pelo método PRK. De tempos em tempos eu recebia e-mails (diretos, e redirecionamentos de comentários feitos aqui no blog) com muitas pessoas agradecendo a precisão dos detalhes descritos naquele doloroso processo. Não pude responder a todos, mas aqui vai um enorme agradecimento geral pela boa acolhida. ;)

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A propósito, fazia tanto tempo que eu nem entrava na parte da Administração deste espaço, que agora me deparei com uma ótima e inteligente reformulação deste quesito no WordPress (provavelmente está assim a muito tempo e só o retardado aqui não percebeu), tanto que quase nem me perdi no processo de renascimento.

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Uma Pequena Nota de Relançamento

Fevereiro 1, 2009 · 2 Comentários

Fiquei ausente por meses. Não houve nada de errado, eu apenas estava de férias do universo da blogosfera.

2008 foi um turnpoint na minha vida, um amálgama de mortes e renascimentos. Nasci quando passei a enxergar bem sem o auxílio de óculos. Por outro lado, um Willliam morreu, de certo modo, quando não pôde mais usar óculos. Morri na maratona assombrosa e desgastante de meses acompanhando uma das pessoas mais importantes da minha vida definhar em cima de uma cama por meses, e finalmente ser tragada por um câncer. Destarte, outro William nasceu, advindo da experiência, e acrescido do simbolismo da ausência de um ícone da fase inicial de sua vida. Ah, transições…que seriamos sem elas? Uma eterna água parada, estagnada…cômoda e preguiçosa (este ano passei a não conseguir mais dissociar uma coisa da outra) atraindo doenças de todas as espécies: reais e imaginárias.

Uma vez concluindo que a doença que impedia o renascimento deste espaço virtual era meramente imaginária, só me resta reabrir suas portas e janelas e espanar a poeira; o acumulo desta é um processo alérgico…e letárgico.

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