Em meio ao beco escuro, em uma noite que beirava a uma espécie de releitura da era glacial, vi aquele senhor espreitando atrás de um poste de lampião queimado; não tive tempo de o temer, pois – de fato – percebi que estava com mais temor do que eu. Percebi, logo após, que aquele pequeno volume que carregava às costas não era nenhuma mochila de sobrevivência, e sim uma pequena garotinha, de uns 7 anos, creio.
Após aparentemente perceber que eu não era nenhum dos seus perseguidores, ele seguiu avançando pelo beco. Evitando fazer barulho de passos, ele caminhava rapidamente de uma forma que parecia um espectro, quase flutuando sobre o calçamento.
Subitamente entendi o que ele temia, dei alguns rápidos passos em sua direção e sussurrei: “por aí não..por aí não…ele vai te pegar, está te esperando com uma emboscada logo adiante.”. Ele parou e, de fato, vislumbrou a uma longa distância, em uma rua iluminada aonde o beco findava, uma sombra alta e ameaçadora que felizmente não nos enxergava, pois a medonha escuridão do beco nos protegia. Senti seu desespero por alguns instantes (não havia por onde fugir), até o momento em que ele notou uma abertura a determinada altura de um muro de uma casa vizinha ao beco. Na mesma hora entendi o que ele queria e me ofereci para segurar a garotinha enquanto ele escalasse aquela irregular parede, ao que ele em um primeiro momento fez menção de recusar, mas provavelmente sentindo que outra opção era inexistente, permitiu. Fiquei admirado com a destreza daquele senhor, que devia estar beirando os cinquenta anos – um palpite; escalando o muro até aquela saliência. Ao ver que ele conseguira, estiquei-me e devolvi-lhe a pequena até seus braços. Ele agradeceu do fundo do coração (eu senti que era verdade), e sumiu nas trevas daquele vão na parede, adentrando em algum pátio, ou assemelhado…enfim, algum lugar seguro.
Segui meu caminho no Beco até o já mencionado fim do mesmo, na rua iluminada; ao chegar a esse ponto, deparei-me com a origem daquela sombra alta avistada anteriormente: um oficial de polícia, que ao ver-me fez uma educada saudação, e perguntou se eu não havia cruzado com um senhor suspeito naquele beco, ao que eu respondi: “senhor oficial, isso é um tanto relativo, para mim todos são senhores suspeitos a esta hora da noite, inclusive o senhor…e quiçá eu mesmo”. Ele, julgando estar falando com algum pândego,ordenou que eu desaparecesse de sua frente, ao que eu obedeci imediatamente: não queria passar a noite na prisão.
Um pouco mais adiante virei-me para trás e vi que o oficial havia desaparecido: entrara no beco, na continuação de sua busca? Eu não sabia. Tratei de seguir meu caminho, não gostava de interferir nas grandes histórias, enquanto resmungava : “maldito Javert”.

_____________________________________________________________________________________________________________________________
Acordei.
4h da madrugada, adormeci lendo, e o livro agora estava caído ao lado da cama. Peguei-o, e coloquei no costumeiro local dos livros de cabeceira. Ah, “Os Miseráveis”, desde a leitura de “Os Irmãos Karamazóv” meu subconsciente não invadira tanto a imaginação alheia do século retrasado. Mas, mesmo assim, ainda grogue por recém ter despertado de um sono profundo, ponderei: “oras, eu me sentiria um verme se permitisse que capturassem o Jean Valjean com a coitadinha da Cosette a tiracolo….”.




