"Esperando pela Chuva" ou "Enxergando Pelo Lado Positivo"

Entradas do Abril 2008

“O Bibliotecário” Ou “Como Eu Aprendi a Parar de me Preocupar e Amar a Catalogação” ( IV )

Abril 22, 2008 · 2 Comentários

e)A Usuária em Chamas

Era uma manhã cinzenta, porém calma e leve. Naquele dia eu estava no balcão de empréstimos quando soou o alarme do celular, uma mensagem de texto: “Fulana está indo aí, em estado de fúria”. Pasmo com aquela informação, liguei para minha fonte de informações que explicou-me brevemente a história. Desliguei e fiquei divagando a respeito: “É, as confusões nunca dão trégua…”. Olhei para a bolsista – que vinha levar novo lote de livros para guardar nas estantes – , com pena antecipada do que viria a ocorrer.

Resolvi antecipar a futura batalha para uma funcionária do plantão: “Fui informado de que vem um temporal para cá”, informei à M., que estava no setor de Serviço de Referência. “É? Não percebi que o tempo está tão ruim assim…”, ela respondeu. “Você não entendeu, vem um temporal em forma de pessoa…”, com essa afirmação principiei uma melhor explicação dos fatos.

Mas quais eram os fatos?

Bem, a pessoa em questão havia retirado alguns itens para empréstimo no dia anterior (lembrava-me bem do fato, pois eu estava no setor de referência na ocasião, e a usuária atendida, apesar de possuir esplêndidos conhecimentos biblioteconômicos, estava com um singular ataque de preguiça para efetuar a pesquisa ela mesma) e, aparentemente, a bolsista que estava no balcão de empréstimos esqueceu-se de dizer que o prazo de devolução de determinado livro era 3 horas, ao invés do tempo usual de 7 dias. Nestes casos a multa por atraso é por hora, e não por dia. Imaginem agora se uma pessoa fica com um desses por dias? E o transtorno do bloqueio total ao empréstimo em todas as bibliotecas do sistema? Pois é….razão suficiente para colocar fogo em uma Biblioteca.
Provavelmente eu faria isso.

M. redargüiu que entendia, mas não competia a ela resolver o caso, etc e tal. Eu dei de ombros e prossegui meu trabalho de guerrear contra as cartinhas do jogo de paciência do computador ao mesmo tempo em que avaliava a possibilidade de utilizar um grande dicionário Houaiss como escudo durante o confronto iminente. Mal percebi quando a bolsista passou por perto avisando de que iria descer para tomar um café, ou algo do gênero.

Cerca de 2 minutos depois o tempo subitamente ficou carregado. Senti, além de um estranho cheiro de algo queimando, um frio na espinha. Levantei os olhos do monitor um instante e a vi cruzando as portas automáticas da biblioteca. Tive a idéia repentina de me esconder embaixo do balcão, mas não houve tempo para tanto, sorri amarelo para ela, ao mesmo tempo em que vinha caminhando, decidida, em minha direção, com passadas que produziam tanto barulho – culpa do seu usual e exótico [outros adjetivos são suprimidos nesta versão] modo de andar – tal qual como naquele dia. Perguntou-me, ruidosamente, se a bolsista estava; dizendo-lhe a verdade, neguei (maldita sortuda). Ela então quis saber com quem poderia falar sobre aquele assunto, apontei-lhe M., a pessoa de posto mais elevado disponível naquele momento (eu já sabia a resposta de antemão, mas queria que ela própria escutasse). Sem sequer sonhar em agradecer, nem por educação, ela se pôs na frente de M., e começou a despejar os fatos ocorridos, enfatizando e sublinhando as partes mais vergonhosas, pelo seu ponto de vista: a falta de pessoal qualificado (estamos na UFRGS, querida) e de melhor sinalização e informação sobre que o livro é de empréstimo de tempo restrito (imaginei uma caveirinha desenhada na lombada do livro).

M. repetiu a sua reação de quando lhe expliquei o fato, e afirmou que compreendia, mas que a usuária deveria entrar em contato com a bibliotecária-chefe, que não se encontrava lá naquela manhã específica.

Como uma ventania que antecede a chuva, ela foi embora, com cara de pouquíssimos amigos. Logo após o sol abriu, e a bolsista retornou.

Maldita sortuda”, resmunguei novamente.

No dia seguinte, antes mesmo de me dar bom dia, a bibliotecária-chefe exclamou: “Aquela tua colega é muito atrevidinha para o meu gosto. Sabe que eu não iria abonar a multa dela, mas ela me pertubou tanto ontem de tarde, no telefone, que achei melhor fazer isso de uma vez, para evitar maiores incomodações….”. Ponderei as palavras antes: “Pois é, foi uma série de pequenos erros, a própria bolsista admitiu o equívoco, embora eu ache a sinalização extra um pouco de papagaiagem demais para meu gosto….ainda se fossem caveirinhas…mas enfim….nada também justifica a suposta estupidez dela que tu está me relatando….”. Ela grunhiu, em um tom de concordância contrariada, e foi para sua sala.

Algumas Considerações…

A velha arte de andar em cima de um muro quando conveniente, digna de um estagiário curricular, que frequentemente tem sua opinião solicitada, mesmo que não seja muito bom quando tais opiniões divergem do staff local. Em verdade, sinto-me como um explorador do mundo cotidiano dessas entidades denominadas bibliotecas nestas últimas semanas. Há casos que observo que são dignos de estudos, alguns outros são dignos de pesar, e ainda há os dignos de riso. O do relato deste dia merece um misto dos dois últimos.

Quem sabe coloco estes casos nos anexos do relatório final de estágio?

Brincadeirinha….

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Disco de Cabeceira Atual:

R.E.M. – Accelerate ( 2008 )

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PRK – Eye In The Sky (Final)

Abril 20, 2008 · 77 Comentários

Depois de muito tempo, a parte final do relatório sobre a recuperação dos meus olhos, que sofreram cirurgia refrativa de correção de miopia, dia 14/2 último.

Dia 15 –
A partir desse ponto deixo de perceber o “esbranquiçado” na visão de ambos os olhos, e passo a considerar a visão “decente”. O olho esquerdo está com uma nitidez 100% perfeita, mas o direito estagnou em uns 70%. Passo a ter medo de que tenha ocorrido hipocorreção nesse olho. A visão noturna é muito inferior em termos de nitidez, e as lâmpadas e faróis estão repletos de “efeitos especiais”.

Dia 20 – Visita de revisão no oftalmologista que me operou. O quadro está praticamente idêntico ao do dia 15. Reclamo dessa situação a ele, que praticamente jura que as condições de visão melhorarão muito. Reitera que devo ter paciência, e esperar o tempo agir, pois a recuperação é realmente lerda para casos de miopia alta como a minha (o fato do esquerdo, que tinha maior miopia que o direito se recuperar primeiro foi atribuído a um capricho da minha natureza regenerativa, e àquela pequena anomalia presente no olho direito). O retorno ficou marcado para 40 dias depois.

Dia 21 a Dia 30 – Diferença ínfima para melhor, na visão noturna de ambos os olhos, e na acuidade visual do olho direito. Por volta do trigésimo dia, passo a sentir pouca ou nenhuma necessidade do colírio lubrificante, e isso é muito bom. Por outro lado, sinto nos olhos, principalmente no esquerdo, um leve astigmatismo (as letras e números ficam um pouco tremidos).

Acho engraçado dizer que na recuperação se passa, artificialmente, por todas as deficiências de visão conhecidas: hipermetropia nos primeiros 3 dias, uma espécie de miopia (visão cansada) por semanas, e, finalmente, o astigmatismo. Posso dizer, essa é a anomalia mais desagradável de todas, pois sua visão é nítida, mas você simplesmente tem dificuldades de focar em detalhes importantes, tais como as letras.

Entre o dia 30 e 45 - A partir do trigésimo dia, passo a parar de me preocupar tanto com meus olhos, que eram até então preocupação constante e alvo de avaliação diária; de fato passam-se dias em que simplesmente esqueço-me de sua existência, foi simplesmente a melhor coisa que poderia ter acontecido, pois pude perceber uma melhora consistente por volta do quadragésimo quinto dia, quando começa a reta final deste relato.

Nessa época o astigmatismo, tão repentinamente como veio, tão repentinamente se foi…para meu alívio.

Entre o dia 46 e 60 – No dia 31 de Março encerrou-se completamente a aplicação do Florate, o colírio remanescente. Não sei se houve uma relação de causa e efeito, ou se foi mera coincidência, mas o fato é que no espaço entre 3 a 7 dias depois do fim da aplicação deste colírio a visão do olho direito melhorou bárbaramente, se equivalendo ao olho esquerdo. Por volta do dia 55 eu tinha mesmo a impressão de que esse olho de recuperação retardatária estava mesmo até melhor que o seu par.

Dia 16 de Abril – 62 dias depois da operação

Finalmente, no novo retorno ao médico, a medição da visão: O médico pediu para ler as letrinhas pequenas na parede sem aqueles penduricalhos na frente, à olho nu: LI AS LETRINHAS SEM A MENOR EXITAÇÃO, POIS ESTAVAM EXTREMAMENTE NÍTIDAS. Parecia que era o auge de uma das maiores alegrias da minha vida, mas ainda tinha mais. O médico resolveu testar uma letrinha ainda mais minúscula que a “normal”. Li a seqüência bem, não tão “bate-pronto” e relaxadamente como a anterior, mas com exitação mínima. Sim, visão acima da média, de 120% (20/15), principalmente no olho direito (o miserável que levou séculos para ficar bom). O resultado extremamente positivo surpreendeu até o médico. Saí literalmente sorridente e saltitante do consultório médico. Devo retornar para uma derradeira revisão em 6 meses.

Considerações Finais

O que dizer sobre toda esta epopéia ? Eu disse que a recuperação foi desagradável né ? Eu menti, a recuperação é extremamente desagradável, mesmo. Há momentos de muita impaciência, pois principalmente nos primeiros 20 dias não há como você não ficar acompanhando minuciosamente a recuperação (lenta) da qualidade visual dos olhos. O que não quer dizer que tal sofrimento não valha 100% a pena…e vale, ô se vale. Tenho impressão de que minha visão, hoje, durante o dia, é ainda melhor do que a visão proporcionada pelos velhos óculos, que corrigiam 6,0E e 4,5D de miopia. É como se as lentes me proporcionassem uma visão de qualidade de imagem de fita VHS e a visão proporcionada por minhas próprias córneas seja de qualidade de DVD.

Ainda há alguns detalhes para melhorar na visão noturna, não na acuidade em si, mas nos efeitos das luzes e lâmpadas. Tais aberrações melhoraram absurdamente em relação ao início do processo (no qual mal podia olhar para uma lâmpada que ela distorcia horrores); estimo que tal sintoma tenha um resquício de cerca de 20% da sua ocorrência inicial. Não considero que haja com o que me preocupar, pois ainda tenho uma margem de meses para os olhos se recuperarem plenamente nesse sentido da luzes noturnas.

Visão nova, vida nova….

P.S – Minha intenção, ao produzir relatório tão minucioso do processo de recuperação da cirurgia refrativa PRK, foi fornecer algum material de apoio mais “humano” e direto para pessoas que passem pela mesma situação, tendo uma melhor “visão” do que ocorre, e quando ocorre, em tal desagradável situação…e mesmo tranqüilizar a respeito daqueles momentos no qual a pessoa acha que nunca mais vai ter uma visão decente, felizmente uma ilusão desesperada do momento.

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