"Esperando pela Chuva" ou "Enxergando Pelo Lado Positivo"

Entradas do Fevereiro 2008

PRK – Eye In The Sky (Terceira Parte)

Fevereiro 26, 2008 · 3 Comentários

Sim, a cirurgia não dói absolutamente nada, mas o mesmo não pode ser dito das horas seguintes, principalmente da primeira noite, pois, isso no meu caso particular, os olhos começaram a arder razoavelmente, principalmente o esquerdo, o mais atingido. Foi necessário um reforço no remédio contra dor. Improvisei tapa-olhos com muita gaze e esparadrapo, mas as mesmas amanheceram jogadas no meio do quarto, e eu não estava acordado quando isso ocorreu…

Dia 1 – No dia seguinte minha visão amanheceu muito embaçada, parecia um forte nevoeiro, e a região das olheiras estavam cavalarmente inchadas. Não era possível ler nada, muito menos parar diante de um monitor ou de uma televisão, pois a fotofobia estava a mil. Não fiz absolutamente nada no dia inteiro, assim como nos 3 dias seguintes.

Dia 2 – O pior de todos em termo de visão e incômodo. A fotofobia aumentou ainda mais e eu mal me enxergava na frente do espelho. Tranquei-me e dormi no quarto escuro o dia inteiro. Foi um dia deprimente.

Dia 3 –
Pouquíssima diferença para melhor em termos de fotofobia. Comecei a mensurar de uma forma pouco ortodoxa a minha acuidade visual:

- O olho direito estava bem pior que o esquerdo (estranhei, a lógica era ocorrer o contrário), como se tivesse enxergando em um óculos com 1 grau de miopia defasado e com a lente “extremamente embaçada”.

- O esquerdo parecia estar submetido a uma lente 0,5 grau mais fraca do que o necessário, e apenas “muito embaçado”.

Essa loucura me incomodava ainda mais, pois meu olho direito, o eterno “olho bom”, sempre foi dominante em relação ao esquerdo, meu cérebro se acostumou dessa forma. Então, eis que, do nada, tudo ficara invertido. Confusão e muita dor de cabeça.

Dia 4 – O turnpoint: os olhos começaram a melhorar lentamente. O que mais me incomodou foram as lentes de contato terapêuticas (os que usam lentes devem imaginar ficar dias a fio com elas sem tirá-las e limpá-las), me prioporcionaram uma sensação que defino como a de “plástico velho e seco grudado no olho”.

Dia 5 – Fui ao médico, de tarde, para a primeira avaliação pós-cirurgia. Ele retirou minhas lentes – teve trabalho , pois haviam grudado demais, principalmente a direita (ahá) pois a primeira fase da cicatrização estava concluída. Instantâneamente senti uma leve melhora no nevoeiro; isso quer dizer que uma boa parte da névoa era da lente estar suja.

O médico também explicou a razão do direito estar pior do que o esquerdo: a correção das anomalias, já citadas, presentes nesse olho. O LASER atuou menos tempo, mas “remodelou” mais coisas, ou seja, atuou em mais pontos do que de costume.

Nessa ocasião foram suspensos o Vigamox e o Still. Continuei com o Florate e com o Oftane, um lubrificante magnífico.

Dia 6 – Melhora sensível. Me animei e fui ao Centro fazer uma nova carteira de identidade (a velha está se desintegrando), aproveitando para entrar numa óptica de renome e dizer para uma bela atendente: “quero um ótimo óculos escuros”…sim, de lá saí com o primeiro óculos escuros da minha vida, não poupei em um ótimo modelo, eu merecia esta dádiva atrasada tantos anos. Quem não tem miopia extrema não valoriza pequenas coisas como essa, e outras.

Dia 7 a 10 – O embaçamento diminui muito lentamente, dia após dia, tanto que é melhor comparar o quadro de 3 em 3 dias do que o de 1 em 1. As diferenças ficam mais concretas. Nesse período a fotofobia quase se foi.

Dia 11 – A situação é a seguinte, o olho direito parece estar submetido a uma lente 0,5 grau fraca (antes era 1) e “meio embaçada”. O esquerdo parece estar sob uma lente 0,25 fraca (antes era 0,5) e “um pouco embaçada”. O direito tem tido uma curva de melhora mais elevada do que o esquerdo, e a diferença entre ambos já é bem mais tênue.
De noite a situação é desagradável, a visão deteriora muito…é algo particularmente detestestável, mesmo que melhorando muito lentamente..

Em suma, eu diria que o esquerdo está 80% bom e o direito uns 60%.

Tenho ainda muito tempo de recuperação. A primeira fase de recuperação leva 30 dias, quando, após, pode-se medir, de forma mais ou menos séria, a acuidade visual.

Enfim, tudo está dentro do cronograma de sofrimentos do pós-operatório.

Continuarei esta série após o dia 5/3, que será minha próxima visita ao oftalmologista.

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PRK – Eye In The Sky (Segunda Parte)

Fevereiro 25, 2008 · 1 Comentário

Começamos com o olho direito, meu olho “bom”, de “apenas” 4,5 graus, mas que também tinha uma pequena anomalia, já citada, para ser corrigida.

Certamente quase todos relembrarão aquela cena antológica de Laranja Mecânica: a lavagem cerebral do personagem Alex, de atuação memorável de Malcolm McDowell. Pois sim, foi como me senti ao colocarem aqueles “separadores”, para impedir de piscar o olho, este foi, para mim, o maior desconforto da cirurgia, pois o tempo inteiro as pálpebras lutam para tentar fechar, e toda aquela pressão acaba machucando um pouco.
Feito isso, é pingado uma quantidade generosa de colírio anestésico no olho que vai ser operado e o médico começa a operação de raspagem, a parte mais pertubadora para quem, como eu, viu os vídeos das cirurgias disponíveis no youtube, mas sinceramente eu mal sentia que havia uma coisa cutucando de leve, diversas vezes, o meu olho, que embaçou muito durante o procedimento. Depois de efetuado, é aplicado um jato de líquidos para limpeza (soro, colírios…etc) diretamente aonde foi desbastado, seguido de ma micro gaze, pressionada de leve, algumas vezes.

O médico perguntou se eu estava bem (eu estava, dentro do possível) e que aplicaria o LASER naquele instante, pedindo para eu focar o olhar no ponto de luz vermelho (na verdade parece uma mistura de vários matizes).
A máquina faz um barulho estranho, estalidos repetitivos, parece uma metralhadora.

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Um aparte interessante: tal máquina, que infelizmente não peguei o nome/modelo é controlada por um computador no qual são inseridos todos os dados sobre o olho que vai ser “bombardeado”. No caso da miopia, ela aplana, com seus raios, a curvatura da córnea…isso a nível microscópico, pois a engenhoca é capaz de escrever um nome de uma pessoa em um fio de cabelo, tamanha a precisão.
Também não é necessário ter medo de mexer o olho na hora da aplicação do LASER, pois ela tem um sistema de rastreamento da posição do olho em questão, a cerca de 50x por segundo…ou seja, se a mudança de posição for pequena ela acompanha e prossegue com segurança; se for uma mudança maior de posição ela pára, por segurança.

Enfim, um orgulho da civilização humana.

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Em meio ao processo, a máquina diz em inglês, com voz feminina, o percentual do andamento da aplicação, enquanto meu médico traduzia (não achei pertinente dizer na hora que entendia perfeitamente o que a voz dizia). Não sei quanto tempo foi, mas sei que deve ter sido bem menos tempo real do que o imaginado por mim….mas eu chutaria uns 30 segundos.
Uma péssima sensação é de sentir um forte cheiro de queimado, muito nauseante….ainda mais sabendo que é você quem está quaimando.

Feito isso, o médico limpa a região novamente, tira o maldito separador (um alívio) e coloca uma lente de contato, sem grau, terapêutica, para proteger o olho no período inicial da cicatrização, a saber quatro ou cinco dias, podendo tal período ser alongado.

O olho esquerdo teve um processo idêntico, com o grande diferencial de ter mais tempo de aplicação do LASER (certamente por ter 30% maior miopia), eu diria que quase o dobro do tempo (na próxima consulta vou perguntar o tempo certo, ele tem tudo anotado nos relatórios)..
Então fui convidado a me levantar e acompanhar o médico para uma sala ao lado (as enfermeiras ficam a um metro de você, te olhando com atenção para ver se você não vai cair, mas eu não estava (muito) tonto e segui o médico de forma digna).

Na salinha ao lado, comecei a me maravilhar com o fato de que estava enxergando muito melhor, incontestávelmente melhor, longe do perfeito que tinha com o óculos, mas já muito melhor que era sem eles. O médico, tratando de jogar água fria no meu entusiasmo, disse que, infelizmente, por razão da cicatrização que começaria logo, a visão logo embaçaria muito, e que melhoraria muito lentamente ao longo de váriosdias. Por fim, receitou-me, em adição aos colírios anteriores, mais um colírio lubrificante (muito útil, descobri depois) e um colírio para cicatrização.
Era quinta-feira, o retorno ficou marcado para a terça-feira seguinte, dia 19 de fevereiro, para a finalidade de tirar as lentes de contato terapêuticas e avaliação do fim da primeira fase de cicatrização.

Fui para casa, onde passaria realmente por complicados primeiros dias pós-cirurgia, complicações previstas, felizmente….

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PRK – Eye In The Sky (Primeira Parte)

Fevereiro 25, 2008 · 1 Comentário

Uma aventura de encher os olhos; ironias à parte, é assim que eu descreveria a minha mais recente epopéia heróica: a cirurgia de correção de miopia.

Era um sonho acalentado a muito tempo atrás, esquecido por uns tempos, e relembrado recentemente (comentei algo sobre isso aqui), finalmente, em um impulso corajoso, posto em prática.

Este “impulso”, esta coisa fundamental para se submeter a tal intervenção, realmente não veio de algo considerado fútil como a simples vaidade; esta ajuda certamente, mas eu diria que ter 6 graus de miopia em um olho e 4,5 em outro, em suma, ser totalmente dependente dos óculos até para enxergar as horas do rádio-relógio a poucos centímetros de distância, foram fatores muito mais decisivos.

Bem, primeiramente deve ser marcado uma consulta (a minha foi dia 10 de janeiro) com um especialista da área, aonde você reúne forças e diz que possui “algum” interesse em corrigir a miopia. O médico fará um exame de acuidade para confirmar o grau, perguntará a quanto tempo ele está estável, no caso 5 anos (não mintam nessa parte, é muito importante), lançará uma luz muito forte em cada olho, ao mesmo momento em que pedirá para virar os olhos em várias direções (não é a coisa mais agradável do mundo, principalmente para “fotofobos” de nascença como eu) para ter um primeiro vislumbre do estado geral das córneas. Ao fim, meu médico disse que, em princípio, tudo estava perfeito, mas que de praxe, eu teria que fazer alguns exames para definir o método: LASIK ou PRK – falarei mais deles adiante – , um deles a famigerada paquimetria.

Na paquimetria, o examinador mete, literalmente, uma espécie de caneta bem no meio do seu olho. Ah, sim, ele é devidamente anestesiado antes com um colírio anestésico, que arde muito, mas que em segundos deixa eles meio dormentes. Tive bastante dificuldade, mas o examinador conseguiu: apurou cerca de 530 micras de espessura em cada córnea. Mais chateações: no outro exame, que fez uma varreduira do meu olho, o médico detectou uma pequena anomalia no olho direito, tendo eu, então, que fazer um exame mais minucioso (e mais caro). Naquela altura do campeonato, eu, morrendo de ansiedade por toda aquela situação, fiz o exame restante (colocar os olhos dentro de um aparelho com uma luz azulada fantasticamente forte) com a maior rapidez possível e logo levei ao médico, que confirmou uma pequena anomalia no “eixo” do direito (o olho tem que estar, teoricamente, bem centrado num parâmetro 90°, o meu estava em 87°) e constatou que minha córnea (de 530 micras) tinha pouca espessura para suportar uma LASIK (que requer, pelo menos, umas 570), então, se eu quisesse operar, deveria ser pelo método PRK, com a adição de Mitomicina.

Fui rápido demais, não? vou explicar um pouco sobre tais metodologias:

LASIK é a técnica mais moderna, pode ser aplicada até em miopias extremas, senão me engano mais de 10 graus. Para ser inserido o LASER no olho, é feito um corte circular incompleto (tipo um tampão de laranja) na córnea através de um aparelhinho de altíssima precisão chamado microceratomo, esta “tampa” é levantada e o LASER entra diretamente no olho, sem o agente intermediário da córnea no caminho. Após este procedimento a “tampa”, ou “flap”, como é a correta denominação, é colocada de volta ao local; esta possui uma aderência e cicatrização formidável e é muito rápida, a maior parte das pessoas enxergam perfeitamente em 48 horas. Como nada é perfeito, a LASIK tem uma pequena incidência de problemas futuros de fantasmas e outras anomalias na visão, tudo em decorrência do “flap”, que também pode se “descolar”, o que certamente é muito grave.

PRK é a técnica anterior a descrita acima, ela tem um nível de possibilidade de aplicação menor que a LASIK, sendo variável a outros fatores, mas é algo entre 5 e 6 graus (com a Mitomicina, substãncia de aplicação descoberta recente, pode-se chegar a 7 graus, segundo o médico….sim, me escapei por um triz) nela o LASER entra em contato diretamente com a córnea, visto que não há corte e “flap”, apenas há um ligeiro desbastamento (“lixada” mesmo…) da camada mais externa. O LASER pegará quase toda córnea no caminho, queimará mais, e o pós-operatório será desagradável e a recuperação (o processo de cicatrização da córnea, basicamente) muito mais lenta. A vantagem é a segurança proporcionada, a córnea tem sua integridade garantida, depois da cicatrização completa será como se nunca houvesse sofrido a cirurgia, diferente do “flap” permanente da LASIK…e por fim, a PRK é mais “democrática”, roubando a palavra expressada por meu médico, visto que permite que pessoas de córnea mais fina (sem graus extremamente elevados) possam abandonar os óculos.

Tudo determinado e esclarecido, concordei, e minha cirurgia foi marcada para o então distante dia 14 de fevereiro, às 17h30. Na ocasião da marcação já me foi indicado a utilização de dois colírios (Vigamox e Still), para terem sua aplicação principiada 24 horas antes da cirurgia.

Eis que chegou o fatídico dia: me apresentei ao hospital, juntamente com minha mãe (uma acompanhante é obrigação, esqueci de comentar). Ao me chamarem tirei o óculos da minha face pela última vez e coloquei-o dentro da caixinha, deixando-o com a “acompanhante” – isso não foi uma atitude movida por frescura, eles pedem que você entre na ala cirúrgica sem os óculos. Uma vez dentro, fizeram-me colocar aquelas capas médicas de cor verde por cima das roupas e uns pedaços do mesmo tecido por cima dos sapatos…situaçãozinha desagradável, creio não ter comentado que jamais havia me submetido a nenhuma cirurgia nesses vinte e três anos. Fizeram-me tomar valium por precaução (de praxe), pois nervosismo não ajuda em absolutamente em nada na cirurgia.

Antes, ainda fizeram uma última verificação dos meus olhos, deitando-me na mesa do aparelho, e tirando fotos dos meus olhos com uma parte do mesmo (sim, ele faz mais coisas do que jogar uma luzinha nos olhos alheios). As lâmpadas que clareiam o processo são extremamente fortes e desagradáveis (já comentei minha fotofobia de nascença).

O médico chegou, me cumprimentou e tudo começou…

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Blattaria (II)

Fevereiro 9, 2008 · Deixe um comentário

E o que se escutou era um relâmpago? Logicamente, do que mais poderia se tratar? Tal fenômeno da natureza fez a dupla, da qual esta história é centrada, ficar tensa, sabiam que não poderiam esperar muito mais tempo; todavia, restavam pelo menos cinco minutos até a hora estipulada.

No intuito de promover um relaxamento daquele estado de alerta geral, Leon puxou conversa sobre algo que deveria ser, naturalmente, uma temática descontraída: mulheres.
“…nunca entendi muito bem a graça de se ver mulheres se arrodilhando, girando, dando piruetas em volta daqueles ferros grudados do teto ao chão…muito menos como não ficam zonzas com tudo aquilo…mas sei que para você nem interessa saber, pois não gosta das desse tipo..”. Com a vaga confirmação de seu amigo, ele continuou : “Tu é do tipo que prefere, como um karma, se apaixonar por aquelas que não lhe darão muita atenção…só se permitir apaixonar já é uma asneira e tanto…agora logo por aquela tal…Sônia? é esse o nome dela certo? Tu tava se fazendo de amiguinho dela faz algumas semanas…ela já deve ter tirado uma boa com a tua cara e deve estar rindo até agora, imagino.”. Nico não se embaraçou, como esperava o amigo, com aquela provocação, e respondeu : “Sim, acertaste, meu caro, ela, no fim, deu uma bela tirada de sarro da minha pessoa, mas não, aquela não continua rindo não” – Dito isso, fechou os olhos, para refletir, como para se lembrar melhor, ao mesmo tempo em que a pesada “sete meia” jazia abandonada, e inutilizada, em alguma daquelas pútridas praias do Guaíba, reluzindo ainda, ao brilho daquela mesma lua ameaçadora.

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Nico, quando decididamente percebera-se apaixonado (oh, tragédias acontecem) pela bela Sônia, logo tratou de se aproximar da moça de alguma forma que ele julgava inteligente, visto seus reconhecidos poucos atrativos físicos. Fez o sempre tolo papel de amigo confidente e sensível. Até mesmo amarguras sobre antigos namorados proferidos em momentos de angústia dela ele suportara. Um dia estufara o peito de coragem e lhe mandara flores, ficando terrivelmente decepcionado com o resultado: ela achara muito amável e bonito da parte de seu querido amigo. Em momento algum, resmungava ele, ele se declarara amigo, jamais se declarara qualquer coisa que fosse…nenhuma declaração, aliás…mas acabara comentendo um erro terrível em sua estratégia, estava certo disso agora, mas realmente não sabia o que poderia fazer de diferente. O mais terrível, sua obsessão por ela era maior a cada dia.
Uma noite, como qualquer todas as outras não citadas, ela, radiante de felicidade, chamara-o para visita-la; mal irrompera na porta ela já despejou a notícia: “Sou a mulher mais feliz do mundo, Pedro e eu vamos casar”. Ele não entendera a “brincadeira” no começo. Que história era essa, afinal de contas? Seu olhar suplicante de explicações parecia ter surtido resultados, pois ela logo esclareceu que tratava-se de seu noivo que estava a viajar em um intercâmbio pelo exterior, fazia quase o intervalo de um ano, estando este perto de regressar. A gota d’água foi quando ela, percebendo seu estado de choque, teve um daqueles infelizes ataques de crueldade femininos e perguntou se ele achava mesmo que ela desejava dele mais do que amizade. “Achei que tinha deixado mais ou menos claro naquela ocasião das flores que me mandaste…” – riu, com desdém.

***

Quando consultados pela polícia, três dias depois, nenhum vizinho alegou ter escutado qualquer barulho, pois, de fato, Nico fora muito eficiente em quebrar, de surpresa, com muita rapidez e força, elementos esses extraídos diretamente do amor próprio e orgulho estraçalhados (quando isso ocorre é notório a necessidade urgente de estraçalhar outras coisas), aquele belo vaso de flores contra a cabeça da sua amada. Com ela inconsciente havia sido relativamente fácil esconde-la dentro do porta-malas de seu carro estacionado, o que fez com que ele tivesse tempo para pensar como proceder, já que percebera que havia embarcado em um caminho sem volta, de retono impraticável, irremediável.

***

Quinze minutos depois, o carro (que, devo adiantar, não é o mesmo em que a dupla está neste instante) parou na beira do alto precipício. Nicolau desceu, procurando uma pesada pedra, tal qual vira naqueles filmes nos quais é fácil matar uma pessoa e esconder o acontecimento de todos, encontrou-a, mas antes de tudo lhe ocorrera de que ela ainda deveria estar viva, a despeito da grande pancada na cabeça. Abriu a tampa do porta-malas. Ela jazia imóvel. Mas, por descargo de consciência fez o que considerava (e este autor absolutamente não tem nada a se intrometer quanto ao modo de pensar de um personagem) um grande gesto ao evitar que sua antiga, e traiçoeira, paixão tivesse uma horrível morte por afogamento, pegou o “sete meia” (que sempre estava, providencialmente, no porta-luvas) e lhe descarregou três tiros. Logo depois fez com que o carro, com o corpo, tivessem o destino de nunca mais serem encontrados no fundo do rio.

Quando ia se deslocando para fora daquele horrível cenário, dera-se conta da arma, ainda esquecida em sua mão. Não teve que pensar muito para dar-lhe destino semelhante ao automóvel e a donzela.

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Suas lembranças foram interrompidas por Leon, que bocejava rudemente; ao término dessa sonolenta atividade disse a Nico: “Sabe, tu nunca me explicou realmente como puderam roubar teu carro, tu é sempre tão cuidadoso…”. Nico sorriu e disse: “Há uma série de infortúnios que podem acontecer com qualquer homem de bem, Leon, e eu espero que realmente tu nunca possas entender isso, mas…vejam só !!! quatro em ponto, chegou nossa hora de trabalhar.

Certamente, a hora chegara.

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Blattaria (I)

Fevereiro 7, 2008 · Deixe um comentário

No meio da madrugada fria, apesar de ser fevereiro, foi possível escutar um ruído de um veículo estacionando, de luzes apagadas, ao mesmo instante em que o vento prenunciava uma intempérie se aproximando.
O carro parou, discretamente, embaixo de frondosas árvores que ocultavam com grande sucesso a existência do mesmo, ficando este, protegido dos perigosos raios lunares, pelas suas trevas naturais.
Dentro, dois indivíduos, que julgo, por comodidade, apresenta-los rapidamente com as poucas informações conhecidas a respeito de ambos. O motorista é Leon, casa dos vinte e poucos anos, o caronista é Nico, sabe-se que não chegou aos trinta, mas estaria bem perto disso.
Sabiam, ambos, que aquela hora – três e quarenta e três – ainda não era exatamente o tempo mais apropriado para agir, decidiram aguardar mais vinte minutos. Sempre cuidando a movimentação (ou a falta dela) naquela rua, continuaram a confabular – distraidamente, para Nico e seriamente, para Leon – do ponto do qual haviam parado a pouco.

“Você não acreditaria, meu…completamente infestado de baratas ! mato umas dez por noite, não sei daonde surgem tantas lá em casa ! Já há escolas de baratas, desfile de moda de baratas, parada militar de baratas…” – Dizia, irritado, Leon, ao que seu companheiro sorriu enigmaticamente e sem prestar muita atenção. “Já beira o desaforo – continuou – a última noite, na parte de trás da porta da cozinha, dei de cara com duas delas fornicando, absolutamente nojento…”. Foi interrompido por Nico perguntando, espantado, o que ele havia feito então. “Bem – continuou Leon – primeiramente eu corri e tirei uma foto daquele acontecimento exótico – jogou o celular com a foto no mostrador no colo de Nico – depois disso eu despejei inseticida sobre elas, com muita vontade e raiva recalcada, de não poder também estar fornicando com alguém naquele momento, você sabe, a grana anda meio curta….”.

Nico pigarreou, levemente embaraçado, olhou para o relógio, ao mesmo tempo em que perguntou sobre o desfecho da história de Leon, que continuou: “No fim de tudo? O fim foi hilário, cara, como tu viu na foto, baratas fornicam cada uma virada para um lado, tal qual um 6 e um 9, ou mesmo um M e um W….bem, quando despejei o inseticida elas simplesmente correram, cada um para o seu lado, mas quem disse que desgrudavam ?? ficaram naquele desespero mortal para verem-se devidamente divorciadas, e muito antes do fim do carnaval….hahahaha, no fim caíram no chão de tanto pavor, e não desgrudaram, morreram juntas as duas….hahahahaha..”. Nico ria também, e disse: “Ah, os laços eternos do matrimônio…e pensar que tão pouco tempo acontecia o mesmo com seres humanos, mas nos controlemos, estamos pouco discretos hoje”. ”Ok – respondeu Leon em um tom de voz quase sussurrado – vamos evitar qualquer coisa que abale nossa eficiência…ou seria eficácia? Não lembro mais o certo…tenho um certo trauma quanto ao ensino desse tipo de coisa, sabe Nico?”.
Após alguns instantes de silêncio, nos quais Nico olhara mais uma vez para o relógio, o mesmo disse: “Que importa qual é o certo? são coisas que não ligo..que não merecem a atenção que tanto anseiam…eficiência, eficácia…bleargh….meu amigo, saiba uma coisa, as tuas amiguinhas, as baratas, são os seres mais eficientes…ou eficazes da face da Terra, rápidas, fugazes, espertas, difíceis de matar….mas mesmo com toda essa eficiência como ser vivo ninguém gosta delas…no fim, de que adianta ?”.

Leon, ficou um par de segundos pasmo com a resposta de seu amigo, esboçou uma réplica, mas nesse instante se percebeu um clarão de luz, seguindo do estrondo do relâmpago…

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