"Esperando pela Chuva" ou "Enxergando Pelo Lado Positivo"

Entradas do Novembro 2007

“O Bibliotecário” Ou “Como Eu Aprendi a Parar de me Preocupar e Amar a Catalogação” ( III )

Novembro 26, 2007 · Deixe um comentário

Nota: Retomada da antiqüíssima e esquecida série, escrita um ano atrás, e com as partes anteriores disponíveis aqui e aqui.

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d)Penitências Informacionais

“Estragado de novo !” Exclamei furioso, tendo que mais uma vez agir como quebra-galho informático dos computadores dos usuários a biblioteca (mesmo que o técnico fosse o mais anti-técnico e boçal da face da Terra). Comprovei que era o drive de disquete. Disseram que mandariam consertar.

“Mas ora bolas! Não se conserta drive de disquete, se joga fora…e de preferência se colocam portas USB nos locais!!!”. Tal exclamação foi no meu íntimo, não quis verbalizá-la por ter pena do meu pescoço. Enquanto imaginava tal desabafo, observei o ridículo da situação: uma escola particular com carroças cibernéticas de uma década atrás…e acreditem: eles não pagam nem um pouco barato por isso.

Agora, daqui a dois meses de indecisão chamam aquele idiota para arrumar essas imundícies…não sei se realmente a roda de orações delas aqui em volta não seria, realmente, mais eficaz….a briga seria feia.” – sussurrei.

Voltei para meu trabalho oficial, para meus próprios problemas….se fosse do meu feitio rezaria para que o programa da biblioteca não travasse pela terceira vez naquela mesma tarde.

Ahhh, que bom que te achei aqui”, disse uma das diretoras, que acabava de entrar na biblioteca (…não sei aonde ela queria me achar, mas tudo bem …) preciso daquele CD que tem aquela musiquinha que obrigamos…digo, fizemos com que as crianças se apresentassem na última festa junina…”.

Tossi discretamente, antevendo a comédia que se seguiria:

Muito bem, claro, a questão é que temos uns 5 CD´s daquela última festa, a senhora sabe o nome da música ?” – perguntei, com ainda algum grau de inocência e esperança na inteligência daquela usuária.

Ahhhh…veja bem…tem uma capinha verde e o refrão é assim assado..”. Começa então a cantarolar, arruinando de vez meu dia.

É claro que todos os CD´s tinham uma capinha padrão verde, e quanto à música: felizmente eu a recordava, ou nem tão felizmente assim – aquele atentado contra a inteligência das pobres crianças me deixou de mau humor durante toda aquela semana junina (as pobres não paravam de serem torturadas com aquilo, e eu então escutei 437 ensaios).

Pois bem, resolvi o problema e disponibilizei o CD, ao mesmo tempo que sabia que umas quatrocentas crianças me declarariam inimigo público número um, a partir daquele momento…

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Disco de Cabeceira Atual: RadioheadIn Rainbows – 2007

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“Recordações do Oitavo Andar” ou “A Despedida”

Novembro 25, 2007 · 1 Comentário

Um desagradável gemido metálico de portão enferrujado irrompeu naquela manhã ensolarada. Alguns pássaros que rondavam por perto dispararam, por precaução; alguns deles, mais corajosos, ainda viram aquela estranha formação de pessoas saindo do interior daquele insólito e decrépito prédio.
Tal construção foi o local no qual W. esteve recluso nos últimos 4 anos, juntamente com cerca de 300 seres com o mesmo destino; destas três centenas: menos de 5% verdadeiros camaradas, sendo esta quase solidão um aspecto (ou faceta) indispensável à pena justamente imposta (tal qual aquela velha e enfadonha senhora de cabelos de cores exóticas explanou naquele longíquo dia de entrada no sanatório).
Voltando àquela manhã ensolarada, todos aqueles seres que tomavam o pátio principal formaram, sem combinação prévia, duas colunas retas, de forma que, um lado encarava o outro. W então surgiu na porta, parou um instante, observando aquelas pessoas – eram tantas, e cada vez mais e mais – até decidir-se parar com aquela atividade danosa antes que o desalento o tomasse por completo. Seguiu então adiante, passos lentos mais decididos, rumo ao portão que gentilmente, pela primeira vez em anos, se abria para ele tomar o sentido inverso, rumo ao mundo exterior, rumo à liberdade. Estava pronto para regressar ao convívio com a sociedade.

Naqueles segundos no qual passava ao meio das colunas, deu-se conta que, de fato, sentia pena de alguns poucos companheiros que ficavam para trás (muitos, com penas ampliadas) e sentiria falta de alguns outros poucos, o que lhe deu um princípio de aperto no coração – pesaroso por seus amigos – , fazendo-o, então, olhar firme adiante, ao portão que o aguardava.
Um galo louco cantava fora de hora, uma vaca pastava tristemente (e aos poucos cada vez se afastava mais, naquela ruminância distraídamente decidida em direção oposta ao sanatório). Alguns abutres voavam displicentemente baixos, mas os mesmos apenas sentiam uma vaga proto-sensação de algo parecido com pena – pena daqueles infelizes que quedavam-se inertes naquelas duas fileiras lá embaixo, sem perspectivas concretas de cruzarem o portão da terra prometida…

Após atravessar o portão, W. ainda virou-se para trás, gritando um “Adeus” para seus companheiros, porém não sendo escutado, pois ao mesmo momento tocava a sirena (re)condenando todos aqueles no pátio a regressarem para dentro da segurança do sanatório.

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Uma Década…

Novembro 23, 2007 · Deixe um comentário

Estes dias estava, como sempre, em alguma conversa de relevância discutível no auspicioso Messenger, quando algo extremamente improvável aconteceu: surgiu um fantástico “J. deseja lhe adicionar como contato” – mal podia acreditar…fiquei feliz ao extremo. Logística feita, fiquei ressabiado em começar a conversar com aquela lembrança particularmente agradável das minhas recordações de infância, mas ela se antecipou, e tudo fluiu bem, maravilhosamente bem (ela também estava ansiosa para isso).

J. era (e é) minha prima, morava em Santiago (do Boqueirão), e quando eu e minha família íamos para lá nas férias, na minha primeira década de vida, ela era a única pessoa daquele núcleo familiar com a minha faixa etária (1 ano mais nova), e ela – provavelmente – tinha um raciocínio semelhante quanto a mim, nesta família de primos com diferenças de idades de até vinte anos.
Santiago, Fevereiro de 1994
Por motivos que não vem ao caso, perdemos contato a partir de 1997. O que, certamente, rendeu combustível para longas conversas no últimos dias.

Mas tudo isso para o quê? Questiono: O que é a lembrança? Nós desenhados naquelas pequenas fotos de polaróide (adorou receber os scans de fotos que sequer lembrava que existiam), ela como uma bonequinha e eu como um playmobil, com um futuro (presente) bastante inimaginável na época? Nossas pálidas e queridas lembranças em comum? Ambas? Provavelmente , pensam hoje aquela bela moça e este que vos fala, de qualidades físicas discutíveis.

Temos um extenso quebra-cabeça da vida, pacientemente juntamos as peças. Tristemente percebemos que algumas simplesmente estão extraviadas. Procuramos e procuramos em vão, até que um dia esquecemos de tal busca, para na seqüência, muito tempo depois, localizar tais peças perdidas que estavam o tempo todo em algum local do tipo….embaixo do travesseiro.

Certamente, localizei algumas peças do quebra-cabeça da minha existência, senão os maiores e mais importantes, algumas das mais afáveis…

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O Policarbonato da Minha Vida

Novembro 20, 2007 · 3 Comentários

Provavelmente, em poucos meses, irei fazer uma cirurgia corretiva da miopia nos olhos. Um problema de nascença (que grande sorte a minha), que – seguindo o tradicional roteiro, quem é míope sabe – foi ficando cada vez pior e pior conforme os anos passaram, principalmente na fase de crescimento da adolescência (“Vamos ver para qual grau tu foi este ano, William…”), até o já previsto e miraculoso estancamento da evolução da mesma aos 18 anos.
Desde novo (precisamente desde os 7 anos) falavam-me que poderia fazer essa operação quando tivesse tal idade, que não necessitaria utilizar óculos para todo o sempre; sim, pois nos anos 90 era de praxe uma perseguição sistemática e implacável na escola contra os pobres e indefesos “quatro-olhos” como eu me enquadrava.
O fato é que realmente utilizar óculos era algo mais complicado na época, o mundo era um tanto retrógrado (ainda existe essa de quatro-olhos? Não creio) e as armações dos óculos ainda mais, pesadas e feias. Conforme o século XX se despedia e o XXI estendia a mão, nossos nem sempre queridos envidraçados emagreceram e ficaram mais simpáticos, até que um dia a própria armação quase desapareceu, um bem-vindo milagre da engenharia, na minha opinião. Na atualidade, exibir os tais vidros (vidro não, policarbonato, não quebra….mas arranha bem facilmente) é algo até bacaninha, tal qual o antes considerado horroroso aparelho dentário.

Mas voltando ao fio da meada, o que ocorreu é que o ano do décimo oitavo aniversário chegou, um tal de dois mil e três….e nada. Sim, acabei simplesmente me esquecendo da tão acalentada cirurgia. Tal anseio se perdeu em algum ponto do tempo, do qual não saberia precisar agora, os motivos possivelmente se enquadram na explicação anterior. A idéia até voltava, com alguma peridiocidade reduzida, bem apagada….e…
….e então chegamos em um ponto próximo ao epílogo de dois mil e sete. Um belo dia acordo e decido: “Vou consertar esta miopia estúpida…”, assim, do nada, ignorando mesmo toda a identidade visual, uma marca pessoal que acabou se acoplando a mim com as lentes neste anos. É, concordo…mas tudo é questão de costume.

Até eu estranho tais rompantes de trezentos e sessenta graus com os quais posso acordar um belo dia, embora eles não sejam do tipo fogo em palha, bastando lembrar um belo dia de carnaval no qual acordei decidido a perder 25kg até o fim do ano….mas isso é história para outro dia.

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The Mercy Seat

Novembro 19, 2007 · Deixe um comentário

Do excelente Tender Prey, de Nick Cave. Para energizar a semana que começa.

[...]And the mercy seat is waiting
And I think my head is burning
And in a way I’m yearning
To be done with all this measuring of proof
A life for a life
And a truth for a truth
And anyway there was no proof
But I’m not afraid to tell a lie[...]

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Inconclusivo (II)

Novembro 19, 2007 · Deixe um comentário

Então, como um antídoto, você tenta, de varias formas, ser um indivíduo razoavelmente aceitável para os benditos padrões sociais (e tal atitude é especialmente desagradável para alguém de natureza pouco social e individual, mas os tais instintos falam, e alto…) e então faz determinados esforços no sentido de ter uma imagem melhor, começando com a auto-imagem…ok, fase número um completa, você venceu, e se deu conta disso! Mas vem a fase dois, e você se sai um completo e trágico fracassado.
Qual a razão?
No que consiste tal imenso bloqueio que parece existir entre eu e aquelas pessoas? Será algo tão mundano como a mera falta de uma cirurgia plástica? Existirá também intervenções médicas contra o desespero? Como se faz para quebrar o espelho? Quero sair de dentro dele.
Tenho a impressão de que no dia em que descobrir isso minha vida mudará por completo.

Quem sabe?

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