"Esperando pela Chuva" ou "Enxergando Pelo Lado Positivo"

Fragmento [...]

Maio 12, 2007 · 1 Comentário

***Naqueles tempos difíceis de abandono, juntamente com aquelas noites extremamente frias, aquele – sem dúvida – era o leal e mais valoroso amigo de Paulo, a despeito do estado de conservação um tanto discutível. Certamente seus amigos, os poucos de carne e osso que sobravam, atribuíam que Paulo não poderia existir sem aquele já puído casaco de flanela com forração; por outro lado, alguns já concluíam que aquela vestimenta – que já fora extremamente magnífica em termos estéticos, um dia – não poderia existir sem seu dono dentro. Não que se fosse retirado ela poderia simplesmente se desintegrar, mas pelo fato de – ao senso comum – o casaco e dono já terem uma espécie de ligação entre si, ou algo do gênero (eles não sabiam explicar melhor, nem se esforçavam para tanto).
Ele, entre um copo e outro de vinho de procedência suspeita, se felicitava de ter aquele casaco; sentia a textura do pano com os dedos, uma sensação agradável ao tato; sequer se lamentava do fato de um dos profundos bolsos – o direito – estar com um furo considerável, ele não tinha nada para guardar dentro dele, com exceção de sua mão. Por vezes, quando se aventurava em um dos albergues da cidade, ele acabava sem pregar o olho a noite inteira com medo que lhe roubassem o casaco. Nessas ocasiões, ficava estirado na cama, tentando não pensar em nada, olhando com uma atenção distraída para aquela sua preciosa vestimenta cuidadosamente enroscada entre seus braços e sua cabeça (uma velha estratégia anti-furto); já havia calculado centenas de vezes o número de quadrados das estampas cinzas e suas variações do mesmo tom, tão típicas de casacos de flanela; da última vez a contagem tinha sido de setenta e nove, da penúltima setenta e oito: Paulo ficava confuso, o casaco crescia de alguma forma. Depois da madrugada de vigília, quando finalmente amanhecia e chegava a hora de sair, ele colocava sua roupa, sem nunca deixar de perceber aqueles dois botões que faltavam, um na abertura principal e outro na manga esquerda. Realmente não lembrava de tê-los perdidos, por outro lado não conseguia lembrar de nenhum momento no qual aquele casaco tivesse tido aqueles dois botões algum dia; era como se o casaco já tivesse, caprichosamente, sido concebido daquela maneira errática.

***Fragmento de um texto elaborado para a aula de Língua Portuguesa B, da faculdade. Qualquer semelhança com qualquer coisa que o Orwell já tenha escrito, ou com um velho e célebre casaco que eu tive, é mera coincidência.

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