Fiz este texto para a aula de Língua Portuguesa da Faculdade, como gostaram muito dele por lá (e estou com pouco material para publicar), aqui vai ele…levemente retrabalhado.
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Recordo de uma lição e tanto na minha vida que tive certa vez; aos vinte anos de idade, por características pessoais e por um grande autocontrole, eu tinha a convicção total de que quase nada seria capaz de me abalar emocionalmente, tendo até certo orgulho disso. Porém, eis que um rápido desencadear de fatos confrontou diretamente tal visão: tudo aconteceu a cerca de dois anos, mas a lembrança é tal qual como se fosse semana retrasada. Minha mãe fazia um tratamento dentário na ocasião, e o dentista descobriu o que ele denominou de “estranhos nódulos” (nome médico pomposo para caroços) na parte de baixo da boca dela. Essas anomalias foram retiradas para uma análise detalhada em um laboratório; claro, afinal não eram coisas que normalmente aparecem dentro de uma boca, com o terrível agravante de serem clássicos sinais de câncer no local, na maior parte dos casos.
No mesmo dia, na mesa do jantar, minha mãe me relatou a situação de uma maneira forçosamente casual (“a propósito, provavelmente eu esteja com câncer, pode me alcançar o sal?”), o que provavelmente exacerbou minha sensação de arraso, injustiça, piedade, do mundo desabar embaixo dos pés, etc; que se manifestaram exteriormente em mim com um empalidecimento notável e uma súbita perda de apetite.
O resultado da análise saía em duas semanas; pois bem, foram as piores duas semanas da minha vida, nesse período de tempo entendi plenamente o conceito de ansiedade, angústia e pavor; por outro lado foi nessa ocasião que eu finalmente percebi o quanto de fato amava minha mãe. Sim, sempre sou insensível, talvez mesmo ingrato; mas foi só algo ameaçá-la para eu ficar quase histérico e sem saber direito aonde pisar no chão (e quem me conhece sabe o quanto esse comportamento, de fato, não combina muito comigo).
As malditas duas semanas finalmente se foram, e então ela pediu gentilmente que eu fosse buscar os resultados – alegava estar muito ocupada no dia – que ela chamava eufemisticamente de “exames”, sendo que tal pedido soou para mim como uma brincadeira de mau gosto com requintes de crueldade. Ao recebê-los eu fiquei um tanto tentado em abri-los, acabando – positiva ou negativamente – com aquela angústia que me deixava febril, mas resisti, mantive o envelope intacto para sua destinatária, eu ainda tinha estômago para seguir o raciocínio de que era ela quem deveria ler aquele nefasto papel primeiro.
Senti o chão firmar-se novamente e a incômoda mistura de angústia e tensão se esvaírem quando ela leu e disse : ”Nada, eram apenas tumores benignos”. De fato, não eram muito graves se comparáveis com um câncer. Alívio geral, mas nunca me saiu da mente aquele horror que foi vivenciado; e como ela – a vítima disso – se comportou com muito mais calma e dignidade do que eu, pouco mais que um expectador de luxo.