"Esperando pela Chuva" ou "Enxergando Pelo Lado Positivo"

Entradas do Dezembro 2006

Pelas Ruas Eu Corro

Dezembro 31, 2006 · Deixe um comentário

Da janela do ônibus eu vi uma sacola do Carrefour voando louca e tristemente ao meio de dezenas de seres humanos que andavam e que – de certa forma – voavam, ao seu próprio jeito…..muito graciosa a cena do vôo cego daquele invólucro de plástico, um símbolo extremo de nossos tempos modernos (blah, blah, blah), e não era um filme !

Em um estado que beirava o desespero/alívio, tão típico de véspera de fim de ano (associo mais a missão cumprida, duramente cumprida), eu tentava apressar mentalmente – estupidamente – o ônibus, em vão. Nisso, ele parou na sinaleira, me propiciando o tradicional devaneio de 30 segundos (ou minutos, ou meses, ou anos…cada vez mais tal torna-se relativo, é a idade…) que me fez pensar sobre o quanto eu mudei nestes últimos trezentos e sessenta e cinco dias. Fato. Eu deveria esperar, apenas, que fosse para melhor. Aqui já vale o aparte de que a própria noção de melhor/pior evoluiu neste ano, se relativizou ao extremo, mas fazer o quê? Era questão de sobrevivência. No sexto ano do século vinte e um matamos ou morremos, infelizmente…aprendi isso.
Bem, se não sou mais nada ingênuo, se me tornei extremamente duro e por vezes até amargurado tive razões…pode ser até que seja o lado bom de tudo (achei !). Sim, virei um ser vivo competitivo pela vida, pelo direito a ela.
Sim, William, engula o choro e olhe adiante. Já demonstraste fraqueza demais em vinte dos vinte e um anos de existência.

A sacola seguiu voando em direção aleatória, sendo eletrocutada ao enganchar em um fio de energia elétrica e após, caindo – moribunda – sob a calçada, derrotada.

Antes ela do que eu.

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Disco de Cabeceira Atual: The GloveBlue Sunshine – 1983

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Lista Sonora: Versão Zero Seis

Dezembro 22, 2006 · 2 Comentários

Bem, vamos a tradicional atividade de elaboração de listas de melhores discos (que escutei), em 2006. Não fiz esta lista brincadeira no fim de 2005 por ser o ano em questão extremamente pobre em coisas relevantes; não que 2006 tenha sido muito melhor, por exemplo: não consegui preencher um simples levantamento de dez álbuns, então – no melhor estilo High Fidelity – vamos a um Top Five, acrescidos de mais alguns álbuns que chamaram a atenção:

1° Lugar
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MorrisseyRingleader of the Tormentors

Não vou discutir a respeito de quanto é suspeito um grande fã de Smiths como eu eleger este o melhor álbum (não disparado, mas com quase empate técnico em relação ao segundo colocado) do ano; mas o fato é: senhoras e senhores, o grande poeta Morrissey está vivo, e este álbum (fazendo uma espécie de dobradinha com a sensacional volta do exílio com o You Are The Quarry, de 2004) tem o potencial de fazer questionar as insuperáveis (em termos de lirismo) qualidades dos discos dos Smiths, além de também levantar a pertinente questão: Johnny Marr era mesmo, assim…tão necessário???

2° Lugar
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Isobel Campbell & Mark LaneganBallad Of Broken Seas

Das tantas possíveis parcerias musicais, esta com certeza foi a que mais passou longe da minha cabeça, mas o belíssimo resultado final, que agradabilíssima boa surpresa !
Comparemos a delicadeza (quem sabe o francesismo, por vezes enjoante? )do Gentle Waves com qualquer disco movido a desespero mais whisky e assemelhados de Mark Lanegan. Isobel é um doce licor, Lanegan é um respeitável vinho tinto seco de boa qualidade. Qual o resultado da mistura dessas bebidas? Não, ao contrário da maioria das misturas alcoólicas essa passou longe de gerar a tão conhecida e desagradável dor de cabeça – apesar do grande estranhamento inicial – e sim surpreende pela força da união inesperadamente perfeita do melhor de dois mundos, antes aparentemente tão diametralmente opostos.

3° Lugar
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Pearl Jam – Pearl Jam a.k.aDisco do Abacate

Depois da inesquecível seqüência de shows da turnê sul-americana no fim do ano passado (incluindo Porto Alegre!), o velho PJ entrou em estúdio embalado e soltou esse assombroso petardo que ora remete aos tempos do Vitalogy, ora à época do Yield, com o diferencial da exacerbação da já reconhecida orientação política da banda. Só não é primeiro lugar pela falta de ousadia, que, reconheço, quase chateia.
Tudo bem, talvez um dia o PJ fará seu disco duplo conceitual.

4° Lugar
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Cat PowerThe Greatest

O bom da Cat Power é que as as altas expectativas ante a um lançamento sempre acabam supridas por um ótimo disco, e The Greatest não é exceção a regra. O álbum segue uma tendência mais….como posso dizer? Céu limpo e com poucas nuvens de tempestade que ela adotou nos últimos três anos. Por falar em três anos, o único defeito da cantora/compositora é lançar discos com essa dilatada peridiocidade.

5° Lugar
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Jorge Drexler – 12 segundos de Oscuridad

Não, ele não era uma tempestade de verão (em relação ao sucesso) passageira. Não, ele não deixou o sucesso do merecidíssimo Oscar de 2004 subir a cabeça. Sim, ele é uruguaio. Sim, ele é um letrista sensacional. Sim, ele é Drexler, conseguindo um álbum ainda melhor que o já ótimo Eco, de 2004.
Aquela música com barulhinhos do MSN (La Infidelidad em la Era Informática) é impagável. Enfim, presença garantida no Mp3 Player.

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Ainda merecem menção honrosa (mas não o suficiente para entrar na lista) o bom The Life Pursuit, do Belle & Sebastian – que mesmo não sendo a melhor coisa já feita pelo grupo pelo menos é superior aos dois ou três últimos discos, dando assim uma salutar revigorada nessa banda que gosto, porém que eu desconfiava estar murchando; Living With War: disco anti-guerra do Iraque e anti-Bush de meu adorado tio Neil Young, (voltando a plugar as guitarras depois de anos) feito bastante despretensiosamente, porém, em minha opinião, o melhor disco dele desde o Broken Arrow, de 1996; e logicamente o Broken Boy Soldiers, do Raconteurs, que me faz começar a desconfiar que o Jack White está se tornando uma lenda viva do Rock, feito assombroso nos obscuros dias atuais.

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Almas Mortas / Ano Morto

Dezembro 20, 2006 · Deixe um comentário

Quanto valem almas mortas? Na magnífica obra de Nikolai Gogol, Chichikov achou demasiado o preço de compra de 2 copeques e meio por cabeça (ou crânio?) por se tratarem – supostamente – de artigos comerciais sem valor, e isso que ele nem partiria com os restos humanos propriamente ditos (no máximo dariam um bom espantalho para a plantação, segundo o protagonista), apenas teria “posse” de mais nomes para incorporar ao seu patrimônio de almas, o que certamente lhe daria prestígio (se estavam vivas ou não, mero detalhe burocrático).

Quanto vale um ano morto? quanto vale 2006? Creio que pouco, com certeza nem dois mil e seis centavos.

Mas podemos seguir seu enterro (simples, sem pompa, caixão de pinho) até o dia 31.

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Disco de Cabeceira Atual: George HarrisonAll Things Must Pass – 1970

Categorias: Literatura

Das Ironias

Dezembro 19, 2006 · Deixe um comentário

Mas ainda restam doze dias até o fim do ano e ele, pródigo em superar suas desgraças (como eu já afirmei no post anterior), faz com que de minha janela do trabalho se enxergue tranquilamente e sem esforço um Beira-Rio lotado, com uma pesada artilharia anti-aérea e com um helicóptero o sobrevoando.
Um quadro irônico nesta tarde de terça-feira.

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Das Coisas Desagradáveis

Dezembro 17, 2006 · 1 Comentário

Quando se acha que um ano já mostrou todo o seu potencial de desgraças, ele ainda pode se superar na última quinzena do último mês.

Francamente, quando voltaremos ao estado natural das coisas?

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Fim de Show

Dezembro 12, 2006 · Deixe um comentário

Nossos joelhos se roçam nos bancos exóticos (nunca vou me acostumar a viajar “de costas”) virados de frente no ônibus que desliza Avenida Ipiranga a fora, rumo ao meu lar, nesta manhã mormacenta.
Ela, que roça seus joelhos nos meus, sorri para algo (todos fazemos questão de achar algo – qualquer argumento – que nos faça sorrir neste mês; uma espécie de obrigação cultural de fim de ano). Eu, cordialmente, retribuo o sorriso.

Acabou?
Acabou!

Fim de semestre. E quase perdi minha parada ! Pois, distraído, olhava disfarçadamente para a moça dos joelhos brancos que, havia pouco, tinha me brindado com a gentileza do belo sorriso enquanto – como um mantra – eu cantarolava mentalmente:

I wanna go home, take off this uniform and leave this show…”

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Disco de Cabeceira Atual: Mark Lanegan – I’ll Take Care of You – 1999

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