Apenas um relato que não possui absolutamente nada a respeito de problemas sociais, mas sim de problemas “sociais”.
Ele era um indigente social. Vivia em uma profunda pobreza de afeição Tinha consciência de que nenhuma mulher lhe destinava tal coisa…mas também percebia que, eventualmente, alguma quebrava esse quadro; porém mais por uma questão humanitária (pena !!! o mais sórdido, torpe e nojento sentimento humano! – pensava, sempre amargurado).
Procurava permanecer sempre fielmente comportado à sua parede, respeitando o espaço da calçada, nunca atrapalhando a passagem das pedestres com sua tétrica e desagradável figura. Recolhia, com asco, os pequenos “pedaços de afeição” que elas ofereciam de esmola, como um prato de restos de comida, ou mesmo um velho pão já semi-fossilizado…sim, recolhia as “generosas ofertas”, mas com raiva e ódio das suas benfeitoras.
Enfim, tinha ele o seu orgulho, e isso o bastava; estufava seu peito com este bem precioso…e sonhava com o dia em que ele próprio é quem haveria de dar tais esmolas! Ainda tinha alguns resquícios dos tempos de sonhador crônico.
Mas o tempo – pródigo em promover mudanças nas coisas, transformar boas lembranças em pesadelos e vice-versa…e no caso desta narrativa: na vida e na alma de uma pessoa – aparentemente está destruindo o seu orgulho, paulatinamente.
Aliás, dias atrás presenciei algo realmente pouco crível: eu o vi beijando os pés de uma das benfeitoras, agradecido – de verdade – por ter recebido um pedaço de pão um pouco menos velho do que o de costume…
Post-Facto
Tive informações bastante recentes (quentes !) de que a figura central deste relato achou essencialmente indigno de sua parte se lançar de um dos mais célebres viadutos desta cidade, preferindo esquecer que pensou seriamente no assunto por eternos três minutos…
Ao que me consta, o orgulho pode, por vezes, ser letal; principalmente para pessoas excessivamente sensíveis. Me preocupo com a sorte de tal infeliz figura, mas como dizem: “o mundo é assim mesmo”…
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Disco de Cabeceira Atual: Buena Vista Social Club – 1997


