Esforço-me por repensar minha vida nestes três dias em Montevideo, mas é tudo em vão…sempre surge algo ou mesmo alguém mais interessante para se manter em mente em detrimento dos problemáticos e patéticos eventos que sucederam a mim nas últimas semanas em Porto Alegre.
Alegro-me escutando meus passos aparentemente despreocupados soarem pela Calle 18 de Julio e me conforta a certeza de que não vou encontrar nenhum conhecido pela frente, nem se eu caminhar o dia inteiro…e de fato caminhar foi o que eu mais fiz naquela ensolarada tarde de sexta-feira, sempre – e destaco o “sempre” – com a semi-consciente sensação de estar em permanente fuga das atrozes perversidades que as pessoas com quem convivo insistem em me fazer a título de “todos te amamos e isto é o melhor para você”…seguro firmemente o riso com o sorriso mais cínico de todos os tempos – desde que se conhece o conceito de cinismo – e sigo caminhando firmemente sem propósito algum definido.
Mas enfim…
Cansado de tanta bateção de perna despropositada acabo por desfrutar cada segundo da indescritível sensação de – apesar do frio – estar tomando uma cerveja deliciosa sentado em uma mesinha na calçada de uma das calles mais tradicionais da ciudad vieja, observando as pessoas que passam com a relativa tranqüilidade que uma tarde ensolarada de sexta-feira potencialmente pode oferecer e esforçando-me para não pensar na clássica situação clichê de estar-diante-de-um-quadro-do-qual-estou-fazendo-parte, mas como nunca escapamos totalmente destas situações, logo dei por mim rabiscando em um guardanapo uma possível teoria de salvação da minha vida e da humanidade…
Enfim, chega de cerveja…
Subo em um velho ônibus (velho, no caso, como elogio) de linha para outro ponto da cidade com o objetivo de me perder e de nunca mais me encontrar…mas uma freada brusca faz com que eu fique com um dos ferros de segurança nas mãos – não, não estou exagerando nem fazendo piada…antes fosse o caso – e assim fui arrancado de meu delicioso devaneio de volta à realidade…
Ao anoitecer, próximo ao hotel encontrei uma amiga (sim, conheço pessoas lá, no fim das contas, e…sim, da mesma faixa etária) que trabalha em uma loja de roupas de lã e couro na mesma quadra do hotel; acha graça do ocorrido no ônibus que acabo por contar e confidencia que tal fato é mais comum do que posso supor e que, portanto, não é nada pessoal…(sim, ela conhece minha paranóia), nada que eu não possa esquecer com um café quente ou um cálice de vinho – palavras dela, com certa sabedoria, admito.
Enfim, vamos a la noche…


