Respiro o marasmo de minha vida em mais um repetitivo fim de tarde do verão porto-alegrense, enquanto aguardo pacientemente (talvez nem tanto) o ônibus que me levará ao lar após mais uma monótona tarde de trabalho.
Tento pensar em algo profundo…um raciocínio aproveitável que seja, para passar o tempo; porém a letargia mental que a parada de ônibus impõe é deveras forte…mas, eis que vejo o bólido de aço vindo em minha direção, e em questão de segundos penetro em um sólido símbolo da sociedade urbana neste planeta.
Sento.
Uma súbita sensação de que algo interessante ocorrerá ainda hoje, e parece que não me engano, pois noto que a pessoa que está sentada ao meu lado é um belo exemplar do sexo oposto…de cabelos ruivos chamuscantes e óculos de aro escuro – e que bela surpresa !!! – compenetrada na leitura de um livro.
Repentinamente a luminosidade do dia muda de tom; as nuvens se afastaram do sol eu creio.
O que um dos raros exemplares de digno homem de vinte e um anos, na sociedade atual, faz diante de tal quadro?
Sim. Abro rapidamente um livro que cá tenho comigo na pasta (sempre tenho algo para ler), neste caso uma comédia de Shakespeare.
É uma besteira intragável, mas aquele quadro de “bela-mulher-leitora-possivelmente-inteligente-e-interessante” passa-me uma ponta de esperança quanto ao futuro da humanidade (vejam só a que ponto chega uma mente imaginativa)…bem, talvez, para ser menos megalomaníaco, a figura apenas chama minha atenção, em um ponto de vista masculino é claro.
Mas enfim, quantos pensamentos deste calibre passam por minha mente quando, repentinamente, fico consternado com o que ocorre…ela levanta-se e pede espaço para passar, e só nesse momento, e apenas naquele instante (Oh! Pobre e ingênuo William) percebo aquele vil e massacrante detalhe na capa de seu livro: Paulo Coelho.
Eu estou liquidado.
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Fim de tarde. Parece que vai fazer um dia quente amanhã…não sei, o que importa é que tenho ainda um livro para me distrair até chegar em casa, na Sibéria.
Seu nome: “Muito Barulho por Nada”.
A vida em pleno século XXI ainda é uma comédia Shakespeariana.
Entradas do Janeiro 2006
Muito Barulho Por Nada
Janeiro 27, 2006 · 3 Comentários
“Pseudo-Elegia dos Vinte e Um” ou “Coletânea de Devaneios Provocados Pelo Calor”
Janeiro 7, 2006 · Deixe um comentário
Então devo ajustar a marcha diária para a lenta e, a partir desta deixar todo o resto – e, sim, isto me exclui – se espatifar nas curvas bruscas da vida.
A perspectiva passada e vindoura (e por quê não “atual”) de tempo tem o poder duplo de me fascinar e apavorar…penso – se eu soubesse amanhã o que eu sabia ontem ! – Ah! maldita tragédia cínica…
É confortante perceber que nos dias atuais me sinto bem em linhas gerais – e aqui traço um paralelo psicológico-comportamental através da música : Não preciso ser unicamente um som sombrio tal como “The Hanging Garden” do The Cure e nem unicamente um ser trivial como “Please Do Not Go” do Violent Femmes, a partir do momento em que posso ser as duas coisas ao mesmo tempo, com uma leve dominância de uma sobre a outra, de tempos em tempos…
Eis: Um híbrido trivialmente triste ou …tristemente trivial !!!
Agora, a noite: Ah ! Esta maldita e fogosa cadela inconstante não me inflige mais medo; muito menos receio – mas terá meu eterno respeito…já que ela respeita (se abstendo de derreter) as máscaras dos pobres seres humanos que tentam sobreviver dignamente aqui em baixo, e…Ah! a propósito, isso me recorda que certa vez perguntei a um sábio como não enlouquecer na noite, e ele me respondeu: “Veja bem, William, não seja muito feliz e otimista; por outro lado, o mais importante é tentar não ser muito triste e pessimista…”.
Agora, os dias: Por vezes sinto que eles têm algo a me dizer e mostrar, mas não escuto ou vejo corretamente o recado – tantas vezes tenho certeza que não um, mas dois pares de olhos e ouvidos desvendariam o mistério. Aqui tenho metade dos requisitos, a pergunta: aonde estão os elementos que completam este par?
Noto que os últimos dias vêm passando na velocidade da luz, tenho certeza de que algo não vai acontecer hoje.
Amanhã não se sabe…
P.S 1 – Sim, sou um bobalhão ás vezes.
P.S.2 – Não, não minto.
P.S 3 – Hmmm…Amanhã, quem sabe?!
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