"Esperando pela Chuva" ou "Enxergando Pelo Lado Positivo"

Entradas do Dezembro 2005

Trilogia Diurna / Terceira Parte – “Uma Floresta” ou “Embates Mentais Mas Não (Muito) Ficcionais” – Epílogo

Dezembro 31, 2005 · Deixe um comentário

O gosto de cevada penetrou no íntimo de seu ser…e, em princípio era apenas cevada – e nada mais !!!…W. preferiu acreditar nesta segunda proposição, apesar de possuir elementos de sobra para fazer outra opção.
“Por que está tão pálido?”, W. escutou a pergunta de M.D, mas a resposta para tal, esta ele julgava saber. “Estou me sentindo péssimo com este calor…” Até ali nenhuma mentira, pois realmente o tempo estava intoleravelmente abafado, mas, não obstante – tão certo que tal resposta não foi mentirosa, tão falso dizer que ela foi verdadeira; mas enfim, nisto M.D sugeriu a W. que fossem ao quarto ao lado, que possuía uma janela – “ar puro nunca faz mal” – frisou W.
Ele sentia-se terrivelmente cansado para se negar – muito menos negar um pedido de sua própria pessoa, e quem sabe dar por fim sua busca por respostas – portanto, seguiu-se de encontro para a cena seguinte, que é descrita com M.D sentado em uma cadeira, apoiado em um piano e W. encostado na janela, de quando em quando olhando para as estrelas e respirando profundamente o ar noturno.
O silêncio estabeleceu-se por um par de minutos, sendo rompido repentinamente por M.D: “Já te antecipo, meu caro, que não existem respostas para seus anseios, nem verdades…ao menos não verdades com “V” maiúsculo…mas, sim – posso te expor verdades com “v” minúsculo, embora, no seu caso, seja apenas uma a verdade, nem duas, nem três…apenas uma.” W. estava mais do que cansado : tranqüilo – sim uma estranha tranqüilidade tomava conta de seu ser, era como se soubesse de antemão a resposta, e ainda mais do que isso…ah! os mistérios da revigorante atmosfera noturna, e pensar que estava com tanto medo e trauma daquele ambiente algumas horas antes…eis então que M.D tossiu secamente, olhou para a lâmpada que iluminava o ambiente, e disse por fim: “Tu és apenas um personagem de um conto que vai ser escrito especialmente para meu blog, em princípio em teor depressivo por razão de uma desilusão amorosa, e por fim em tom cômico-filosófico por eu ser bem maior do que aquilo tudo…então você se pergunta quem é de verdade – e eu respondo : seu personagem é, em poucas palavras, baseado na minha própria pessoa; por fim, você é eu, e eu sou você..e amanhã não se sabe”
W., que teoricamente deveria ter caído duro com semelhante e bombástica revelação, não estava muito surpreso – já suspeitava de algo semelhante desde a viagem no ônibus de P. – mas, estava ainda um tanto relutante: “Se é verdade, eu sou apenas um elemento escorregadio de sua (e minha, de certo modo) imaginação…mas, meu amigo, há um detalhe que você esqueceu”. “Qual?”, perguntou M.D, tocando uma nota, distraidamente, no piano.
“Ou você teve um lapso, ou isso tudo é mentira…você deveria ser a única pessoa a me ver, por razões óbvias, mas interagi com mais alguém”. Expôs, triunfante. “Não tão rápido, meu alter-ego, se você se refere a N., P. ou E., tire o cavalo da chuva – eles também eram personagens da minha mente, sim…baseados em pessoas (e grandes pessoas, diga-se de passagem) da realidade…mas nada mais do que personagens. Mais alguma dúvida?” M.D respondeu, um pouco arrogante, mas já com certa pena de W., mas este ainda tinha mais uma ou duas cartas na manga: “Esqueceste de outro detalhe, além deles, outra pessoa interagiu comigo – a pouco tempo uma moça dirigiu-se à mim e ainda me entregou um cigarro aceso em mãos, isto prova que não apenas existo em sua mente”.
M.D deu uma risada, e replicou: “Isto não prova nada, apenas prova que aquela moça estava tão bêbada que estava imaginando coisas – e ela não te entregou o cigarro, ele caiu no carpete…e, sim, foi seriamente repreendida pelo fato”. W., se enfureceu muito com a resposta…pegou uma das guitarras expostas na parede do quarto, e disse: “Não, não ainda…resta sim uma prova de que não sou pura e simplesmente uma fantasia sua…fantasias não produzem dor !!!”. E lançou o instrumento, com toda a força contra a cabeça de M.D, que mal teve tempo de piscar…

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M.D acordou em sua cama – em sua casa – com a cabeça ardendo por razão da ressaca da bebedeira da noite anterior…havia sonhado intensamente com…não lembrava – bem, fato normal. Começou a se vestir lentamente, até o momento que notou as folhas em branco sobre a escrivaninha; terminou de se vestir e, de súbito, uma idéia lhe tomou a mente como um raio.
Tomou a caneta em pulso, olhou fixamente para a folha em sua frente por uns dez segundos, e escreveu num rompante:

“…e perto do fim daquela terrível noite W. se viu perdido em uma selva de tons predominantemente gris, todas as cores repentinamente haviam desaparecido; a questão passava então a ser: É possível ao que nunca existiu desaparecer ?”

–FIM– \o/

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Trilogia Diurna / Terceira Parte – “Uma Floresta” ou “Embates Mentais Mas Não (Muito) Ficcionais” – Capítulo Primeiro

Dezembro 25, 2005 · Deixe um comentário

…subindo a labiríntica escada, descendo da montanha da reflexão junto à planície do esclarecimento…hmmm, certo. Sim. Ele aproveitou a pequena aglomeração de três ou quatro pessoas que entravam no apartamento para tentar se misturar e quedar-se desapercebido, obtendo certo êxito nesta empreitada…Ah! sim, a boa e velha técnica de discrição da qual ele tanto se orgulhava…
Mas e daí ?! Que poderia dizer a si mesmo quanto ao motivo de estar ali?!…factualmente, achara o endereço posto no seu bolso, possivelmente por P.; mas…seria impossível que soubesse de antemão tal destinação, sim – pensava – poderia ter sido algo subconsciente, sendo que P. apenas trouxera tal anseio para o campo do conciente…
“Que formidável convenção de besteiras!!!”, pensou, quanto ia seguindo o fluxo de pessoas na cozinha; nisto, alguém pôs uma lata de cerveja em suas mãos…. W. olhou para quem fizera tal gentileza, mas o estranho já estava se dirigindo à grande sala ao lado, tendo “visto” ele, portanto, por apenas um segundo de relance…W., guiado por algum instinto, resolveu seguir o estranho para…simplesmente puxar conversa, mas antes, guiado por algum outro primário instinto nato, abriu a lata do dourado líquido e sorveu um generoso gole. Tendo, então, se declarado apto para a interação, partiu para a sala.
A música alta do aparelho toca-discos ecoava pelo apartamento quando ele passou pela porta da cozinha e adentrou na sala cheia de pessoas conversando animadamente, localizou o estranho sentado logo adiante, conversando com uma bela moça de cabelos escuros….W. teve um súbito mal estar ao reconhecer aquele estranho, que…ora bolas, não deveria ser chamado mais de estranho, porém seguirá sendo chamado assim por razões de melhor identificação (por mais contra-sensual que isso possa parecer). W. teve uma espécie de vertigem com a súbita e inesperada revelação, e provavelmente acabaria derramando sua lata de cerveja se uma estranha figura não tivesse esbarrado naquele exato momento com ele.
Não, realmente ser quase atropelado, naquela já perplexa situação, por um estranho parecido com um rabino não melhorou as coisas…pelo contrário…porém, antes que dirigisse qualquer palavra àquela extravagante figura, ela já estava fora do seu alcance…visivelmente atarefada colocando inúmeras latas de cerveja dentro da geladeira…, pois bem, ele engoliu em seco a falta de educação e seguiu adiante…mas, oh sim ! ele estava chocado por ter se reconhecido em um dos personagens da festa, acabava de se lembrar de tal fato quando o sofá ao lado do “estranho” foi desocupado, permitindo a W. sentar-se ali e tentar esclarecer tão extravagante fato de ficção científica de segunda categoria…
Sentou-se, o “estranho” estava visivelmente entretido em sua lata de cerveja, W. então resolveu tomar a iniciativa da conversa, com o objetivo de desvendar tal mistério…mas, eis que neste exato momento uma jovem e simpática loira lhe prende um cigarro aceso entre os dedos, e dizendo, antes que W. esboçasse qualquer reação : “Segura ele tá ? vou trocar o lado do disco…”; W. ficou um tanto desconcertado – mais pelo elemento surpresa do que por qualquer outra coisa – por alguns instantes, até que o “estranho” ao lado lhe disse: “…é melhor pôr no cinzeiro”.
W. escutou, mas não compreendeu…”como assim?”, perguntou. “Sim, o cigarro…ponha no cinzeiro ao teu lado…a brasa está por cair, e não seria adequado que ela caísse logo no carpete…”. Com esta resposta do “estranho”, W. voltou a si, fez a ação sugerida, tomou um gole de cerveja e perguntou para ele, querendo começar um esclarecimento: “Ando meio desligado, mas o problema em si não é este…mas enfim, como se chama?”.
O “estranho” olhou em direção ao aparelho de som, que voltava a tocar sua melodia, após ter o disco trocado de lado, e respondeu: “Alguns me chamam de M.D”, mas é apenas um título…como eu diria? …uma palavra que uso muito…ah, sim, extravagante…sim, um título extravagante….mas diga, quem é você?”.
“Meu nome é W.”, respondeu, definitivamente convencido de que tinham posto algo em sua bebida…

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Trilogia Diurna / Segunda Parte – “Um Ônibus Mágico” ou “Uma Longa Estrada” – Capítulo Segundo

Dezembro 22, 2005 · Deixe um comentário

“…de modo que você anda perdido por aí faz tempo?”. E o colóquio já durava cerca de vinte minutos, constando os minutos quedos silenciosos por parte de W., que P., aos poucos foi vencendo, demonstrando ser mais amigo do que inimigo naquela longa estrada.
W. estava nas profundezas dos pensamentos, sobre o que se passara com ele nos últimos dias (noites) e o que ainda haveria de passar; respondeu a indagação de P., incerto, ou melhor, certo de sua incerteza : “É algo que tenho pensado cá comigo, atrás das fibras mortas de meu ser…há quanto tempo ando perdido por aí?! Bem, é complicado responder isto…no momento em que não tenho certeza se um dia estive certo de minha localização…tanto emocional quanto racional no nosso pequeno universo…, de tal forma que, se nunca estive localizado, creio que não possa estar, exatamente, perdido…”
P. puxou um pequeno caderno do bolso da camisa e fez algumas anotações…W. riu e disse: “Então é verdade que você é psicólogo musical?”. “não, na verdade sou “apenas” mais um compositor musical…porém o que o jovem disse pode dar uma boa letra de música para o meu próximo disco.”, P. respondeu, tentando parecer sério; nisto, guardou o caderninho, fez nova seqüência de acordes na guitarra, e, sem olhar para W., disse: “Poderia eu afirmar que isso não passa de perda de tempo adolescente, porém, visto que você parece superior (e maduro, creio) a tais crises pouco fundamentadas, talvez fosse o caso de encarar tal problema de frente, ir de direção à noite e encara-la corajosamente…sim, sem medo, seria uma forma de superar seu trauma, que foi causado pela noite, suponho…”.
W. quase caiu da cadeira, na verdade apenas não caiu por que de fato não estava sentado em uma, apenas recostado em uma das confortáveis paredes acolchoadas. “…é uma dedução fantástica…não lembro de ter dito tantos detalhes sobre isso…ou eu disse?”. Perguntou, surpreso, W., que obteve como resposta: “não disse, e não culpe o escritor desta história de ser relapso, na verdade eu li a primeira parte desta história em algum lugar…ele estava demorando tanto para publicar a continuação…”. “Escritor? Como assim?”, replicou W. “Ahn, esqueça, eu pensei alto…sem estar alto, pois é cedo ainda…”, treplicou P., encerrando a questão.
Foi um dia de viagem deveras agradável, porém, perto do anoitecer o ônibus se aproximava da Real Cidade de W., que já vinha quase farto de tantos conselhos recebidos de P., que ainda teve tempo de passar um último, logo após se despedir: “Lembre-se, o amor pode ser uma vingança, porém a vingança nunca liberta…”. W., escalando as caixas de som, tal como uma escada, ascendeu à parte superior do ônibus mágico; lá embaixo, P. fazia novas anotações: “…esta doença certamente nos leva à lugares nos quais não costumamos ir, porém, nessa excitante jornada, devemos aprender tudo o que for possível…”
O ônibus cessou sua marcha em uma zona escura, na parte central da cidade, E. disse: “Para você não guardar má recordação de mim, alguns conselhos: deixe o oceano noturno dissolver as mágoas do passado, mas cuidado para que o sol não queime sua máscara…isso é importante, acredite…”.
W. desceu, ainda virou-se para E. e fez uma última pergunta: “para aonde prossegue a longa estrada?”. “Para aonde vai a longa estrada ? não posso saber, mas aqui não posso permanecer…mas não há necessidade de dizer Adeus.”.
Minutos depois, W. caminha apreensivo, porém corajosamente pelo ambiente noturno da cidade. Havia encontrado em um dos bolsos um papel com um endereço e número de apartamento anotados…obra de P., por certo.
E, eis…chegou no número indicado, era ali, e…sim, era provavelmente mais uma daquelas festinhas de apartamento de estudantes universitários desocupados.
Era um bom começo como desafio.
Sabia que faltava algo a ser feito.
Mas ele não sabia ao certo.

N.A – Ainda este ano, a terceira e derradeira parte.

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Trilogia Diurna / Segunda Parte – “Um Ônibus Mágico” ou “Uma Longa Estrada” – Capítulo Primeiro

Dezembro 18, 2005 · Deixe um comentário

…o sol já se levantava com força e ainda ventava quando W. chegou à porta, que já se abria. Ao primeiro olhar, surpresa…mas nem tanto, e se colocou à pensar na razão da surpresa não surpreender como usualmente surpreende….mas enfim, aquele homem que conduzia o veículo não lhe era de todo estranho, já vira ele, ou alguém muito parecido de perto, e não fazia muito tempo…
Antes de W. abrir a boca, certeiramente o condutor afirmou: “Este ônibus só avança, portanto não há necessidade de olhar para trás, assim, uma vez embarcando, perca a esperança de retorno…”
Por muitos anos depois daquele evento W. ainda se lembraria com vivacidade de lembrança daqueles verdes olhos perspicazes…principalmente do momento no qual eles se dirigiram pela primeira vez em sua direção, procedidos do som da fala: “Topas?”. “Estou muito velho para ser indeciso, mas já decidi que espero ficar muito mais velho antes de morrer”. Com esta resposta, W. encerrou a questão, embarcou, e o ônibus prosseguiu na longa estrada…
W. constatou que era um ônibus velho, um modelo que lembrava os antigos ônibus ingleses dos anos sessenta, porém com apenas um andar, algumas poucas poltronas, e ninguém mais !…estranho. “não é um ônibus velho, é um ônibus antigo!!!”, antes mesmo de concluir seu pensamento, foi interrompido de tal forma pelo condutor, que, ainda visivelmente aborrecido, explicou: “O velho P. não pode escutar isto, ele tem um enorme afeto por isto tudo, há anos que este veículo o ajuda a espalhar sua doutrina e fé, ainda mais nos dias atuais no qual ele perdeu a maioria de seus antigos parceiros…mas ora, isto não lhe importa”.
Ainda chocado, W. respondeu, já um tanto áspero: “Em primeiro lugar, eu não disse nada, em segundo lugar, não vejo mais ninguém nesta geringonça retrô ambulante…”. O condutor, acelerando mais a gering…digo, o ônibus, acendeu um cigarro, e , após desviar de mais um buraco da sinuosa estrada, disse: “mas você pensou, todos pensam isto…na verdade, os seres humanos são um tanto previsíveis, principalmente os desta era…e por fim, você acabou falando mal do ônibus de qualquer forma, e isto denota falta de controle emocional….você já pensou em tratamento? é provável que você tenha personalidade quádrupla ! ”.
W. só ficou ainda mais aborrecido com esta coleção de despautérios, mas seguiu adiante: “Faltou responder sobre o outro passageiro, não vejo mais ninguém, quem é esse tal de P.?”. O condutor apontou para exatamente abaixo dos pés de W., e informou: “este ônibus não é exatamente um veículo convencionalmente racional e lógico, mas faço questão que você receba algumas respostas com um dos maiores especialistas em distúrbios emocionais”.
O que ocorreu nos três segundos seguintes necessita de mais de três segundos para ser descrito: No momento milesimal no qual o condutor havia denunciado a existência do alçapão e W. olhava surpreso para o ponto sob seus pés (aquilo não estava ali antes, tinha certeza disto!), aconteceu a circence, (e vergonhosa situação clichê, que o escritor só descreve por ter sido fato verdadeiro) estapafúrdia e repentina representação da comédia do chão simplesmente lhe faltar sob os pés.
E eis que, o tombo só não foi maior e mais doloroso por que W. caiu sobre enormes caixas de som, que diminuíram a distância até o chão….viu-se então em outro ambiente, uma espécie de sala com as paredes acolchoadas…e sentado à um canto, com um olhar sereno e empunhando uma guitarra (vejam o absurdo da situação), um velho com olhos semelhantes ao do condutor do ônibus mágico, porém azuis…
W. se refazia da queda, ainda um tanto aparvalhado, quando P. disse: “Não culpe E. pelo infeliz acidente, meu jovem…ele tem uma personalidade um tanto sarcástica até mesmo sorumbática, mas é um excelente discípulo…”.
“E.”, pensava W., então já sabia daonde conhecia o condutor do ônibus, aliás…aquele simpático velho não lhe era de todo estranho também…
P. tirou um acorde da guitarra, olhou para W. e disse : “Que tal um pouco de conversa fiada até chegarmos à racionalidade…digo, real cidade ?”.

N.A – A Segunda Parte continua no Capítulo Segundo…

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