"Esperando pela Chuva" ou "Enxergando Pelo Lado Positivo"

Entradas do Novembro 2005

Trilogia Diurna / Primeira Parte – “Reflexos” – Capítulo Segundo

Novembro 19, 2005 · Deixe um comentário

…no alcance da vista, já se percebia a estrada humana…N. e W., seguindo firmes em direção até ela, quedaram quietos no último par de minutos, W. seguia pensativo…subitamente N. chutou uma pedra para longe, e expôs: “Certa vez, em algum lugar…sequer lembro quando exatamente, vi, juntamente com um amigo, um filme…me apaixonei pela atriz…foi precisamente em uma cena específica, curiosamente um trecho no qual nunca entendi plenamente…você sabe, filmes franceses…intocadas e inalcançáveis atrizes francesas…”. “antes de mais nada, pare de chutar as pedras, isso dá um azar danado…mas agora me diga, o que raios você quis dizer com isso?”. Perguntou seu interlocutor.
N. riu-se novamente, olhou bem para W. e disse: “o fato é: a atriz interpretou um momento no tempo, um momento na vida, do personagem, e dela mesma !!!…o momento em questão foi incompreensível, mas você deve saber que a vida inteira é desta forma : incompreensível, em maior ou menor grau”. “É uma leitura interessante, mas penso que também pode se relacionar a atriz e sua função com a mulher em si, a da vida real…são a personificação da vida, agem de forma incompreensível e ilógica…sei que é um pensamento amargo e até mesmo machista, mas enfim…”. A exposição logicamente amargurada de W. se seguiu imediatamente do arrependimento de tal declaração pouco concisa, embora fosse sincera…
N. tinha, é claro, uma resposta para isso: “Jovem, isso é de tal forma irrelevante…todo homem precisa de sua dama, isso é fato consumado, e não é qualquer percalço que vai mudar isso…sei que vou esta sendo irritante ao dizer isto: mas você é muito jovem para se abalar e amargurar de tal forma…”. A resposta de W. à isso foi o silêncio.
Nisto, chegaram, por fim, à beira da estrada humana. O incrível silêncio foi contornado por uma repentina rajada de vento que despertou W. dos pensamentos distantes nos quais se encontrava. Percebendo o fim da necessidade de acompanhar W., N. tossiu e disse : “Enfim, eis a estrada…desejo-te sorte, pois apesar de pacata ela costuma ser traiçoeira, quando menos se espera, com seus peregrinos…sim, ela tem perigos, mas também tem seus amigos….não, não me olhe desta forma, uma estrada pode ter amigos sim. Por quê não?…agora preciso ir, logo você encontrará mais alguém nesta jornada, a solidão não é a maior constante do universo como você deve pensar…”. Foram as últimas frases que W. escutou pessoalmente de N…sendo que as últimas palavras já foram entrecortadas pelo vento, que imperava.
W. estava pensativo. Tinha o ânimo e alma revigorados pela edificante conversa com N., o sábio/músico/fazendeiro, agora realmente tinha mais coisas para pensar daí em diante, mas…lógico, ainda ficava longe de se resolver como indivíduo no embate entre emoções e racionalidade – que é o que significa a metáfora de voltar para a sua real cidade, sua realidade, caso alguém ainda não tenha entendido – será que um dia conseguiria ?
De longe, N. deu um último aceno antes de sumir atrás da colina, W. então se pôs à caminhar pela estrada…o que poderia fazer naquele momento? O que poderia dizer?…percorrendo a suspeita estrada, pensava no quanto dura e desgastante era a batalha interna entre as emoções e a racionalidade, mas…estava disposto a prosseguir.
Assim, dentro de poucos minutos surgiu ao longe, na estrada, algo que lembrava um ônibus. Um ônibus suspeito para uma estrada suspeita…a velha ironia atacava novamente, mas tudo bem, pois W. sempre fora seu Defensor Supremo.
Desta forma, se ateve à sua resolução de seguir em frente, e fez sinal de carona ao ônibus, que parou logo adiante….hmmm, vidros escuros, tudo bem…suspense é bom às vezes.
W. corre em direção à porta, para falar ao motorista…
O sol já se levantava com força, e também com força ainda ventava…

(Continuará na Segunda Parte, em breve…)

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Trilogia Diurna / Primeira Parte – “Reflexos” – Capítulo Primeiro

Novembro 18, 2005 · Deixe um comentário

…e a claridade continuava sua marcha firme rumo à vitória ante à noite, que, progressivamente, se esvanecia proporcionalmente ao avanço de suas decididas passadas largas (mas cautelosas, não deixo de lembrar) rumo àquela casa no meio do campo, que agora – com um pouco mais de luz natural – W. identificava ser uma fazenda…ou qualquer coisa do gênero.
E aquela música. Não, não cessara. Agora até começava a reconhecer a melodia, algo familiar…mas diabos…mal acabara o pensamento e a música abruptamente se interrompe….e um rompante de silêncio toma conta do espaço, já deveras silencioso naquelas ermas horas da manhã.
Estava à – o que considerava ser – a medida cercana de cem metros da casa, quando tal fato ocorrera, e então…a sisuda porta se abriu e de lá um estranho saltou para o mundo exterior…não, não seria por isso que W. se assustaria, mas sim pela forma conhecidamente ameaçadora da espingarda que o estranho carregava…mas, ao mesmo tempo no qual foi escrito este último trecho, o estranho já se aproximava de W., que obviamente sustara o passo, e decididamente perdera todo e qualquer interesse e curiosidade por quem estivera tocando a música salvadora, embora soubesse que o homem já postado à sua frente – sim, ele já vencera à distância – seria a provável resposta para a questão.
Enfim, tentou então se adiantar, com educação e simpatia. “Olá senhor, sei que não deveria estar aqui, mas de alguma forma me perdi da realidade…e acabei aqui”. O estranho, notando algo peculiar no brilho do olhar do jovem que tinha à frente, resolveu desengatilhar a espingarda e então disse: “Não, você não é do tipo de intruso que adoro expulsar daqui à saraivadas de tiros de sal…”. Sem entender direito o que vencera a desconfiança daquele homem, mas um pouco mais aliviado, W. derrotou seu próprio temor: “Gostaria, se possível, de ajuda para voltar ao meu mundo, mas enfim…”. “Não se esforce muito em explicar…”. O estranho o interrompeu. “Mas…” W. retrucou constrangido. E o homem continuou : “Qualquer explicação seria um contra-senso, pois é evidente que há um mundo no qual você vive, e ninguém mais pode tomar parte dele”. Surpresa, este foi o estado de W. ante a “tirada”; resolveu então ser espirituoso para tentar angariar simpatia da pessoa que poderia, quem sabe, auxiliar naquela situação penosa. “Alguns chamam isso de ‘lema do solitário’, porém prefiro chamar de ‘regra primordial de realidade individual’”. O homem então refletiu um instante e devolveu-lhe: “Palavras são apenas palavras que permeiam os anos da vida de um homem, você ainda não tem tantas pois é muito jovem…quanto mais velhos ficamos…ora, dane-se, você já deve saber disso….você quer este tipo de ajuda ?! …se é assim posso te levar até a grande estrada humana, não muito longe daqui, apenas alguns minutos à pé”.
W. e o estranho então seguiram em direção àquela estrada. W. nutria esperanças que tal estrada o pudesse levar de volta a sua real cidade, sua racionalidade…vocês já sabem, enfim. O estranho – que tinha um nome (sim !), e já o havia revelado entre o fim do último parágrafo e o começo do atual, aliás…seu nome é N. – revela-se um espelho no que concerne ao conceito de ajudar à refletir…idéias, lógico; para a felicidade de W., que sempre valorizava mais o tipo valoroso de reflexo, o intelectual.
“Então tem certeza de que deseja retornar ao velho cenário da vida?…por experiência própria, sei que é duro fazer tal mudança.”… N. questionava com certa razão, ao passo que W. respondeu : “Minha vida vem mudando de muitas maneiras, já não sei mais no que acreditar…sombras persistentes me perseguem no últimos tempos”. Mal expôs tal fato, e já estava pesaroso em recordar suas recém conquistadas mágoas…
“Mas que diabos”. Em um rompante, N. interrompeu. “Pense no fato da vida sempre trazer novidades, algumas são boas…”. Não, W. não resistiu : “N. esse ‘algumas’ foi a coisa mais inteligente e sensata que alguém me disse nos últimos dias”.
N. estourou em uma gargalhada e reagiu com isto: “Quer dizer então que o jovem não vive exatamente com pessoas muito inteligentes, pelo visto…”. “Pelo contrário, inteligentes demais até…caso contrário…bem, esqueça”. Respondeu um soturno W..

N.A – A Primeira Parte continua no Capítulo Segundo.

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Trilogia Diurna / Prólogo – “Fuga”

Novembro 13, 2005 · Deixe um comentário

…e perto do fim daquela terrível noite W. se viu perdido em uma selva de tons predominantemente gris, todas as cores repentinamente haviam desaparecido; a questão passava então a ser: É possível ao que nunca existiu desaparecer ?
A resposta obviamente não veio, e a questão que sequer fora pronunciada caiu em algo pior do que o vazio noturno daquele estranho local…e não havia mais sequer uma mísera pedra se oferecendo solidariamente ao chute incorfomado…então, percebera a inutilidade de todo aquele sacrifício, percebera aonde tudo aquilo o levara, uma vazia miserabilidade existencial e emocional, para sua sorte mais a última do que a primeira…
Noite sem lua. Que horas seriam? Aonde estaria? …eis então que, rompendo o sepulcral silêncio noturno, surgem os acordes de um instrumento musical. Um banjo talvez…sim, algo completamente inusitado ante ao contexto.
Corre rapidamente, se orientando através daonde a música parecia vir, através da opressiva selva cinza…mas então, o que era aquilo que via adiante?…sim, a “luz no fim do túnel !” …no instante seguinte se auto-condenou pelo pensamento clichê, mas imediatamente condenou-se por auto-condenar-se…
Fim da selva. Mas ainda não estava à salvo, precisava retornar à sua real cidade, sua racionalidade, sua realidade…mas, o que observava exatamente? Um descampado com uma casa adiante…e, sim!!! Era de lá que vinha o som de música que o guiara rumo ao fim do exílio emocional naquele inferno no qual passara as últimas horas…embora pensasse – e se culpou pelo pensamento fútil naquela circunstância – o quão irreal era o alcance que aquela música possuia…
Caminhou firme, mas cautelosamente em direção à casa. As estrelas começavam a sumir, e no horizonte o firmamento começava a ficar com uma tonalidade prateada…

N.A – Continua Terça-Feira, com a Primeira Parte…

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“Factóides”, “Noite” ou “Qual a Distância de um Beijo ?”

Novembro 6, 2005 · Deixe um comentário

…e então saquei a chave do bolso, destranco a porta…mais uma. Pronto, cheguei, quero descansar…mas não, não ainda…notícias…surpresa!….um novo patamar na minha existência.
Pausa. Adiante. Não, preciso de um tempo para digerir, alguns minutos apenas…a vida prossegue, goste eu ou não, circulando, circulando….sou uma roda, girando, vibrando de sentimentos vibrantes. Sim.
Uma nova perspectiva. Um novo dia.
Quando penso então ter tido o ápice das emoções de todo o mês no dia anterior, surge algo preponderantemente desgastante, sim, as sólidas e cristãs uniões já não são mais as mesmas, neste momento penso então ter sorte por ter acumulado tantas experiências desgastantes nestes últimos anos, senão fosse assim eu provavelmente desabaria com mais este factóide (sim, já transformei em um factóide)…mas enfim, uma ode as barreiras internas de gelo, sarcasmo e desdém…
…os ponteiros correm, e já se foram três dias. É madrugada, solitário, caminho vagarosamente – e perigosamente – atrás de um táxi – mas preciso caminhar, preciso pensar – meu novo hobby de caminhante noturno tem me ajudado muito nos últimos dias…é hora de me concentrar em outros problemas…
O som extremamente alto de Stones mal tocado ainda ecoa em minha mente…então apresso o passo…quase corro, como se o chão de minha vida estivesse desabando assim que eu pisasse nele…talvez não seja verdade, mas é uma ilusão etílica perfeita.
O néon da vitrine de uma loja me rouba a atenção. Verde. Um pequeno lembrete da cor que tem a personalidade que mais me fascina nos dias correntes. Sim.Um estranho, e talvez irracional, fascínio pelo verde resplandecente e hipnotizante…
A racionalidade mais e mais me irrita…então, irritado, chuto uma pedra no caminho e penso se não deveria finalmente deixar o chão desabar sob meus pés…na pior das hipóteses seria apenas mais um beijo perdido…

Qual é a distância de um beijo ?

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