…no alcance da vista, já se percebia a estrada humana…N. e W., seguindo firmes em direção até ela, quedaram quietos no último par de minutos, W. seguia pensativo…subitamente N. chutou uma pedra para longe, e expôs: “Certa vez, em algum lugar…sequer lembro quando exatamente, vi, juntamente com um amigo, um filme…me apaixonei pela atriz…foi precisamente em uma cena específica, curiosamente um trecho no qual nunca entendi plenamente…você sabe, filmes franceses…intocadas e inalcançáveis atrizes francesas…”. “antes de mais nada, pare de chutar as pedras, isso dá um azar danado…mas agora me diga, o que raios você quis dizer com isso?”. Perguntou seu interlocutor.
N. riu-se novamente, olhou bem para W. e disse: “o fato é: a atriz interpretou um momento no tempo, um momento na vida, do personagem, e dela mesma !!!…o momento em questão foi incompreensível, mas você deve saber que a vida inteira é desta forma : incompreensível, em maior ou menor grau”. “É uma leitura interessante, mas penso que também pode se relacionar a atriz e sua função com a mulher em si, a da vida real…são a personificação da vida, agem de forma incompreensível e ilógica…sei que é um pensamento amargo e até mesmo machista, mas enfim…”. A exposição logicamente amargurada de W. se seguiu imediatamente do arrependimento de tal declaração pouco concisa, embora fosse sincera…
N. tinha, é claro, uma resposta para isso: “Jovem, isso é de tal forma irrelevante…todo homem precisa de sua dama, isso é fato consumado, e não é qualquer percalço que vai mudar isso…sei que vou esta sendo irritante ao dizer isto: mas você é muito jovem para se abalar e amargurar de tal forma…”. A resposta de W. à isso foi o silêncio.
Nisto, chegaram, por fim, à beira da estrada humana. O incrível silêncio foi contornado por uma repentina rajada de vento que despertou W. dos pensamentos distantes nos quais se encontrava. Percebendo o fim da necessidade de acompanhar W., N. tossiu e disse : “Enfim, eis a estrada…desejo-te sorte, pois apesar de pacata ela costuma ser traiçoeira, quando menos se espera, com seus peregrinos…sim, ela tem perigos, mas também tem seus amigos….não, não me olhe desta forma, uma estrada pode ter amigos sim. Por quê não?…agora preciso ir, logo você encontrará mais alguém nesta jornada, a solidão não é a maior constante do universo como você deve pensar…”. Foram as últimas frases que W. escutou pessoalmente de N…sendo que as últimas palavras já foram entrecortadas pelo vento, que imperava.
W. estava pensativo. Tinha o ânimo e alma revigorados pela edificante conversa com N., o sábio/músico/fazendeiro, agora realmente tinha mais coisas para pensar daí em diante, mas…lógico, ainda ficava longe de se resolver como indivíduo no embate entre emoções e racionalidade – que é o que significa a metáfora de voltar para a sua real cidade, sua realidade, caso alguém ainda não tenha entendido – será que um dia conseguiria ?
De longe, N. deu um último aceno antes de sumir atrás da colina, W. então se pôs à caminhar pela estrada…o que poderia fazer naquele momento? O que poderia dizer?…percorrendo a suspeita estrada, pensava no quanto dura e desgastante era a batalha interna entre as emoções e a racionalidade, mas…estava disposto a prosseguir.
Assim, dentro de poucos minutos surgiu ao longe, na estrada, algo que lembrava um ônibus. Um ônibus suspeito para uma estrada suspeita…a velha ironia atacava novamente, mas tudo bem, pois W. sempre fora seu Defensor Supremo.
Desta forma, se ateve à sua resolução de seguir em frente, e fez sinal de carona ao ônibus, que parou logo adiante….hmmm, vidros escuros, tudo bem…suspense é bom às vezes.
W. corre em direção à porta, para falar ao motorista…
O sol já se levantava com força, e também com força ainda ventava…
(Continuará na Segunda Parte, em breve…)


