Enquanto o sono não vem, nos debatemos apunhalados pelo cruel calor fora de época de uma noite de primavera.
Vira-se de de um lado a outro, naquele perturbador “delírio” que há entre a consciência e o sono. “Não encontro uma solução para um problema deste lado, vou tentar achar do outro então”.
Muitas vezes a posição mais cômoda não é nem uma nem outra, e sim levantar, tomar um copo de água e, a partir desse momento, observar tudo de uma distância considerável. Abrir as janelas, constatar que o mundo continua lá fora, não sendo apenas uma vaga lembrança do dia anterior (não se demorando muito nessa ação, pois os mosquitos não esperam convite).
Após essas ações retoma-se para a cama, em uma nova batalha calorenta de delírio versus consciência, enquanto o sono não vem.
Começo de Verão (Antecipado)
Outubro 31, 2009 · Deixe um comentário
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Fim de Inverno
Setembro 30, 2009 · Deixe um comentário
Sentindo os pés gélidos – apesar das botas de couro e das grossas meias que ostentava (isso sem falar do fato do inverno ter oficialmente acabado) – flanava por aquela rua do Centro da cidade (estranhamente vazia), naqueles últimos dias de Setembro. Seus cabelos cuidadosamente descuidados se deliciavam com a constante ventania que – prenunciando vindouros dias mais claros e mais longos – dava seu ar da graça naquele gracioso fim de tarde.
O som dos passos soavam de forma rítmica na calçada. Meio satisfeito, meio insatisfeito…não sabia com certeza como estava; mas era certo que faltava algo desconhecido para preencher algo incerto.
Encostando-se em uma parede mais ou menos limpa (paredes limpas eram extremamente raras naquela cidade, por isso cuidava para não sujar o sobretudo) fitava com curiosidade espécimes da civilização local…por exemplo, um engraxate com uma perna mais curta do que a outra (não veio lhe oferecer seus serviços… realmente deveria estar parecendo ameaçador totalmente vestido de preto – ele pensou; mesmo que na realidade o engraxate tivesse vestido seus tênis velhos) que caprichosamente mancava, sem pisar em nenhum dos vãos das pedras do calçamento (este detalhe em particular lhe chamou a atenção). Logo adiante, uma motocicleta barulhenta trespassava um semáforo fechado, para pavor e revolta dos apressados passantes da faixa de segurança…e ali, na esquina, um casal apaixonado se beijava fervorosamente, alheios a todo resto – sim, pois a eles a cidade que os cercava era de infinita irrelevância (apesar do já citado frio, que a emprestava um certo charme).
Adorava aquelas ruazinhas próximas do porto. Na esquina seguinte (aonde o casal havia a pouco desaparecido) vislumbrou os velhos, abandonados e enferrujados guindastes…quando uma rajada de vento frio e cortante fez seus cabelos taparem sua visão momentaneamente : “nada mais simbólico….é como um aviso para respeitar a decadência alheia”, pensou. Observou o lado oposto ao porto, notando o grande e antigo prédio rosa ao fim da rua. Eis que, satisfeito consigo mesmo, entendeu o que necessitava para preencher aquele incômodo vazio : “Preciso de chocolate quente…com creme batido…e acima de tudo: necessito do calor dela”.
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Ensaio para o Meio do Fim
Agosto 31, 2009 · Deixe um comentário
As pessoas na fila se agitavam de calor, naquele corredor aveludado que ostentava toda a pompa universitária sublimada do pretenso conhecimento humano adquirido. Beber dessa fonte não era eficaz para aplacar a sede. “Quem dera um copo d’água”, pensava eu.
Cronometragem estabelecida, todos cientes dos determinados segundos para chegar aos nossos lugares em cima do palco, seguido do canto ao hino e ao começo dos trabalhos. Conforme o som espalhado pelo microfone, mais contagem de segundos: rumo à mesa da reitoria, após o chamado, a execução da música – que você nem escuta na hora, tamanho nervosismo (experiência adquirida na formatura do Segundo Grau).
Seres imaginários atrás da mesa, pois – de fato – não há ninguém ainda. O tempo ruge, devo caminhar agilmente para o púlpito e dizer algo teoricamente interessante para cerca de mil pessoas durante 1 minuto. Após, chamo o colega seguinte, seguido de um abraço protocolar e retorno para a cadeira, onde devo ficar mais alguns minutos sorrindo amarelo.
O ensaio está pronto, será assim e não assado….claro, desconsiderando o grau de dificuldade aumentado por, na ocasião futura, estar amarrado a uma toga que esconde um terno com uma sufocante gravata…além de sufocantes anseios e esperanças para o futuro.
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Os amigos e inimigos da felicidade moderna (I)
Julho 14, 2009 · 2 Comentários
Sentiu uma …uma coisa….não, não sabia explicar ao certo, mas tinha a ver com a perda total do encanto que o mundo exercia sobre a criança que ele tinha sido um dia. Tal força foi minando aos poucos a energia vital advinda daquela tenra e terna época, até o momento em que nada mais restou. Nada, a não ser aquela cartela milagrosa de cápsulas de embalagem tarja preta.
Eis que havia decifrado e resumido toda a sequência lógica de sua vida, finalmente, só restava agora saber o que fazer com aquele conhecimento recentemente adquirido. Oferecer-se como um garoto propaganda daquele conhecido Laboratório Químico não era uma idéia tão absurda como – em princípio – tinha parecido a ele. “Nos desculpe, mas precisamos de um rosto mais famoso, e com maior apelo..”, haviam respondido à sua proposta, esta resposta que consistia em uma educada carta de agradecimento pela idéia proposta, e também em mais duas cartelas do tarja preta em questão.
Irritado, sugeriu ao médico a radical troca de toda aquela bomba química, afirmando que não lhe servia para mais nada, que os sintomas haviam retornado. Todos.
O profissional, naturalmente, hesitou, perante aquela mudança drástica do panorama que, até poucos dias, havia sido tão positivo. Uma ameaça velada de suicídio o dissuadiu de qualquer idéia que contrariasse seu paciente. Sabia que da maioria das vezes aquilo não passava de draminhas pré-fabricados de jovens querendo aparecer, mas o considerável número que constava nas estatísticas psiquiátricas sobre a seriedade daquele tipo de ameaça, e, principalmente, a mácula que um acontecimento daquela magnitude poderia gerar em uma respeitável ficha médica….enfim, tremia só de pensar (de fato apresentava um leve tremor no joelho esquerdo, nessas ocasiões) – o que o fez concluir seu raciocínio com muitas reticências, que seriam devidamente retomadas no próximo caso similar.
Saiu satisfeito do consultório, agora tinha uma marca completamente nova de tricíclicos, um lançamento do sempre badalado mercado de medicamentos antidepressivos, o maior rival das religiões, para testar. A capacidade de inovação dessa área da ciência é completamente entusiasmante e ele admitia isso – não sem se deixar de policiar quanto a esse entusiasmo, que poderia, segundo um lógica simples e perigosa, ser mais eficiente que a já referida bomba química….e ele não queria destruir algo do qual ansiava participar.
Estava feliz, e, francamente, olhava com desprezo qualquer tentativa de conversa a respeito da qualidade de tal felicidade. “Abstrações, ora bolas….felicidade é felicidade…felicidade é felicidade – repetia, sem se dar conta.”.
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Fiquei tentado a compreender essa linha de raciocínio tortuosa do personagem, só posso postular que : “Só por quê um copo de café preto esfria, ele não deixa de ser café…mesmo que dê azia….”
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Refundação
Junho 30, 2009 · 1 Comentário
Bem, cá estou de volta. Não surtei, não morri, tampouco desisti. Os últimos 3 meses foram de dedicação exclusiva a minha monografia de conclusão da Faculdade. Agora chega de autores cretinos sobre determinadas realidades que só existem nas mentes acadêmicas. Voltemos à vida. Brindemos!
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As I Sat Sadly By Her Side
Abril 1, 2009 · Deixe um comentário
Para animar este nublado dia em Porto Alegre…
“And God does not care for your benevolence
Anymore than he cares for the lack of it in others
Nor does he care for you to sit
At windows in judgement of the world He created
While sorrows pile up around you
Ugly, useless and over-inflated”
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