O telefonema às 21h da noite daquele 27 de novembro fechou aquele ato da tragédia, levando ao princípio de um novo.
Não sei exatamente a razão de termos ido ao hospital tão imediatamente, pois o único afazer ali era pegar de volta as roupas e cobertores dela, coisa que perfeitamente poderia ter sido feita no dia seguinte; talvez eu quisesse me ver livre logo daquela situação, agindo de forma maquinalmente eficaz na coleta dos objetos pessoais – desejava, no íntimo, queimar aquele quarto maldito, e assim o teria feito se não precisassem dele depois para mais um paciente sofrer sua via-crucis final. Afinal não dizem que a fila anda?
Pertences separados e ensacados, com exceção de uma solitária peça de roupa para fins um tanto óbvios; houve uma separação familiar: enquanto todos iam de volta para casa eu acompanhei minha mãe em direção ao cartório, recebemos carona improvável de um carro do serviço funerário: cortesia do seguro específico.
No cartório os papéis atestam que aquela pessoa sofreu baixa no sistema, o processo contrário da inclusão no mesmo, quando do nascimento. Temos uma relação interessantíssima com livros de uma biblioteca. O que mais seria o atestado de óbito do que uma versão humana de um processo de descarte de livros inúteis ou estragados?
Na salinha de espera, ao contrário do que eu esperava, as pessoas conversavam entre si; recordo-me de um velho senhor de casaco meio puído, de um rapaz com aparência de pedreiro – sem se afastar de seu boné velho nem em uma hora e local daqueles, e um aparente, porém, improvável casal por volta dos quarenta: ela meio gaga e ele com aparelho de surdez…..Quem trabalha nesse local deve ter uma fonte fantástica de histórias das mais diversas. Um novo Nelson Rodrigues surgirá de um cartório, de um plantonista do setor de óbitos.
Em casa, mais tarde, meu último pensamento antes de adormecer foi simples: “amanhã vai ser uma merda”.
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Para mim, pior do que estar ao lado de alguém querido deitado dentro de um caixão, ao lado, é a via-crucis de pessoas que surgem para prestar homenagens, ou por pura curiosidade mesmo. Aquele lento, porém, persistente ataque de mãos buscando o cumprimento dos familiares. Os ressentimentos mútuos muito mal disfarçados com os familiares mais distantes aflorando. Velórios são embates silenciosos entre facções de uma mesma grande família. Um exercício de falsidade e de estômago mútuos.
Reforçando meu raciocínio, ao mesmo tempo em estava divagando isso, uma parenta da falecida – daquelas distantes – conhecida por seu caráter de qualidades discutíveis irrompeu na capela. Seguiu-se uma cena tão espalhafatosa que os demais participantes, então reunidos em pequenos grupinhos de conversas, viraram-se para ver o que acontecia.
Eu mal acreditei quando vi aquela cretina se abraçar ao caixão chorando; era muita falsidade: elas se detestavam. Visualizei a pesada bengala da falecida voando em direção a testa da fulana e mal contive o riso. Me dirigi a salinha na parte de trás da capela e peguei uma vassoura que tinha ali e deixei de ponta-cabeça em um dos cantos, meio escondida. “Uma última homenagem”, pensei, sorrindo.
O maior incoveniente de um velório é a certeza de que se vai encontrar conhecidos e parentes distantes dos quais você não sente a menor simpatia (e em alguns casos a recíproca será verdadeira).
Queria sair um pouco daquele local e não precisei pensar muito em como conseguir tal coisa, pois discretamente um funcionário do cemitério veio falar “ao pé do ouvido”, como ele próprio denominou o teor da conversa, sobre o procedimento burocrático da abertura do sepulcro, pois a falecida seria enterrada (o termo mais apropriado seria “emparedada”) na mesma abertura do esposo (no caso, meu avô), então: o caixão previamente colocado lá havia quase trinta anos seria retirado e incinerado, com os restos colocados em uma espécie de saco plástico, ao lado do novo esquife ao momento do novo “investimento” (termo meu).
No propósito de poupar minha mãe de matar saudades do seu pai, fui lá finalmente “ser apresentado” àquele avô sobre o qual tanto me contavam, mas que não conhecia pessoalmente, visto que havia morrido antes mesmo do meu nascimento. Resolvi aproveitar o espírito daquele dia de coisas desagradáveis para resolver aquela velha questão. Velha questão também porque era um procedimento que deveria ter sido feito a muitos anos, mas minha família consegue agir como políticos, muitas vezes. Políticos no sentido de não fazer nada, mesmo quando necessário.
Não há nada de muito misterioso no procedimento: dois pedreiros começam a martelar com uma estaca de metal as beiradas da lápide, até que ela se rompe num estrondo “sepulcral”. O facho de lanterna que é lançado no buraco escuro na parede ilumina um caixão marrom escuro totalmente enredado em teias confeccionadas por gerações de aranhas.
Um novo estrondo se seguiu, aquelas travas de metal estavam emperradas de tão oxidadas, então um pé de cabra foi necessário para abrir a tampa.
Confesso que talvez eu tenha ficado decepcionado, no fim das contas não havia muito o que ser visto: farrapos do que outrora fora um terno (um desperdício comprar um terno especialmente para isso), fósseis de flores de três décadas atrás e alguns poucos ossinhos escuros. O que chamou a tenção, inclusive dos funcionários, foi o bom estado de conservação do crânio: este estava um tanto…shakesperiano, acrescido de uma bizarra cabeleira que denunciava a moda do ano da morte, além dos absurdamente impecáveis sapatos de couro, sapatos de pés que não existiam mais, nem na forma óssea.
Uma exumação é algo terrivelmente fascinante: é interessante pensar que algo trancado em um lugar a muitos e muitos anos acaba, repentinamente, recebendo novo oxigênio, novo sol. Raciocine que o que foi colocado ali pertence a um outro tempo na história, e que “vê” um novo mundo quando é colocado naquele carrinho de metal. Restos de um outro tempo: em um exercício de imaginação, imaginem mortos de três, quatro…dez décadas atrás, por um capricho bizarro da natureza ressucitando em pleno fim da primeira década do século XXI…creio que as crianças não teriam muitas dificuldades, mas os mais velhos morreriam, de novo, do coração na primeira esquina ao ver um carro (ou ao não-ver um, ao atravessar a rua) ou acusariam de bruxaria uma televisão ou um computador. Enfim, esses enojantes despojos são elos entre os tempos.
Aquelas poucas horas parecem durar muito mais do que a realidade. Dá-se graças quando aquele bizarro circo aproxima-se do seu desfecho. Um padre, jovem, ainda veio expor algumas idéias sobre morte e vida, ou algo do gênero; lembro-me que inclusive achei interessante seu discurso, porém não recordo-me de nada do que ele disse, neste momento. Lembrar do texto de um padre de fim de velório? Para quê? No fim das contas todos concordam com o que ele diz, sem concordar de verdade.
Eu não discordo da morte, discordo apenas de como lidamos, ritualisticamente, com ela, na nossa sociedade. Caixões, velórios, cemitérios, missas de sétimo dia, parentes chatos…por que é necessário passar por isso tudo? Eu realmete quria que apenas a pessoa esmaecesse em pleno ar. E fim. Ah, você quer algo, um local para homenageá-la, recordá-la? No mundo ideal você pegaria qualquer estrela, a esmo mesmo, e diria que a pessoa está lá. Não seria tão difícil de “se programar” para isso: é muito mais simpático do que expor a pessoa a uma espécie de julgamento público pós-morte e trancar o que restou em um canto escuro. Em sadismo isso só perde para a coisa mais sádica que existe, que é a própria morte.
Mas, brincando com o personagem de certo filme: “Eu não quero mais falar sobre isso”.